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25.4.13

O camarão está na página em branco.

Estou eu aqui sentada em um bar restaurante, em uma brecha de um ocupado dia, para comer alguma coisa e aproveitar a breve pausa para escrever uma crônica encomendada. Na minha cabeça passam mil assuntos, dezenas de possíveis personagens que cruzaram meu caminho nas últimas semanas, e que agora defendem seus motivos para saírem do anonimato e virarem estrelas do texto programado.

Enquanto ouço os argumentos de um por um na minha cabeça, peço uma indefectível empadinha de camarão. O pedido chega e eu, depois de um providencial suspiro para oxigenar a mente e o corpinho, dou uma ansiosa mordida na empadinha...Nhac! 

A empadinha amiga está quentinha, bem feita, bem temperada, mas acho que pedi uma empada de camarão; e esse crustáceo que tanto amo, com toda a certeza do mundo do meu estômago, não passou por essa empada, não disse alô, nem bom dia, muito menos até logo. 

Paro e penso rápido. Não, eu não preciso de um momento reclamão agora, não tenho tempo. Mas tenho vontade e, sem querer ser chata, armei um sorriso falsificado e disparei para o garçom que limpava a mesa ao lado: 

— Amigo, será que você se enganou no meu pedidinho? — diminuí os termos tentando ser simpática – Eu pedi uma empada de camarão. 

—  E é o que a senhora está comendo. Todas as empadas com essa bolinha de massa em cima são de camarão. Averiguei bem antes de servir. Nunca erro o pedido de uma empada, porque cada uma tem a sua pista. A de azeitona, por exemplo, vem com uma azeitona em cima. 

— Entendi perfeitamente. —  Tratei logo de falar, antes que ele descrevesse as tais pistas de uma dezenas de sabores. 

Já desanimada. Calei os personagens que ainda insistiam em tentar me convencer a protagonizarem a tal crônica e dei mais uma dentada desconfiada. Nada. Nada de camarão. 

Meu ser que é adoravelmente tranquilo até ter motivos para ser bem malcriado, não conseguiu sossegar neste corpo que queria apenas descansar, escrever e comer camarão. Voltei à questão. 

—  Garçom (que já estava deixando de ser amigo), por favor. —  Ele se aproximou escabreado —  Nesta empada não tem camarão, não tem nem um pedacinho de um; aliás, ela nunca foi nem visitada por alguém dessa categoria. 

—  Mas a empada tinha a bolinha de massa em cima, eu vi, eu... — Interrompi o moço. 

—  Querido, podia até ter 10 bolinhas, podia ter uma instalação de petit pois em cima desta empada, mas o fato é que pedi uma empada de camarão, e o que consegui foi uma empada com um creme temperado de gosto indefinido. 

—  Mas a empada está ruim? O Josué não faz empada ruim, vai ser a primeira vez que alguém reclama de uma empada feita por ele — disse o garçom meio blasè 

—  A empada não está ruim, mas não é de camarão. Eu pedi e, supostamente, vou pagar por uma empada de camarão; e eu não estou comendo camarão nenhum!!!! 

—  Então acho que a senhora não está com sorte, deve ser isso. Porque tenho certeza que o Josué faz empada de camarão boa, mas a da senhora não veio com nenhum. Na hora dele rechear a sua empada, o camarão deve ter escorregado para a panela, deve ter sido isso. 

Respirei fundo, pensei no Dalai Lama, mas as palavras escaparam sozinhas. 

— Como assim? Então comer uma empada de camarão com camarão lá é sorte? Vocês não colocaram no cardápio “ Empada de Camarão”. Então não deveria ter pelo menos os restos mortais de um na minha empada? 

— A senhora está nervosa. Trabalhou muito hoje? Está estressada? Porque se disse que a empada não está ruim, não entendo por que não quer comer a sua empada. 

—  Ok. Valeu. Esquece. — suspirei com a conformidade dos derrotados, antes de continuar

—  Eu só queria comer uma empada de camarão com camarão, mesmo que tivesse um mero traço de DNA do bicho para satisfazer a minha humilde vontade. Acho que uma empada de camarão deve ter camarão, mesmo que custe mais caro, só isso. 

—  Mas aí ninguém vai querer pagar, minha senhora. Vai ficar tudo encalhado. O patrão teria até um troço. 

— Entendi — respondi um pouco mais derrotada e mordi o último pedaço da empada, que agora, além de não ter camarão, estava fria. 

—  Mas quanto custaria uma empada COM camarão, só para eu saber? —  eu á havia desistido, mas  as palavras insistiam em sair, independentes, na esperança de aplacar a minha vontade frustrada. 

—  A senhora não viu no cardápio? A empada de camarão custa R$ 4,00. Quer mais uma?