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O Camarão Está na Página em Branco.

Estou eu aqui sentada em um bar restaurante, em uma brecha de um ocupado dia, para comer alguma coisa e aproveitar a breve pausa para escrever uma crônica encomendada. Na minha cabeça passam mil assuntos, dezenas de possíveis personagens que cruzaram meu caminho nas últimas semanas e que, agora, defendem seus motivos para saírem do anonimato e virarem estrelas do texto programado.

Enquanto ouço os argumentos de um por um na minha cabeça, peço ao garçom uma Malzebier que, por alguma razão, sempre me consola em momentos de alta tensão. Para acompanhá-la, peço também uma indefectível empadinha de camarão. Os pedidos chegam e eu, depois de um providencial suspiro para oxigenar a mente e o corpinho, dou uma ansiosa mordida na empadinha...Nhac! 

A empadinha amiga está quentinha, bem feitinha, bem temperada, mas acho que pedi uma empada de camarão. Curiosamente, esse crustáceo que tanto amo, com toda a certeza do mundo do meu estômago, não passou por essa empada, não disse alô, nem bom dia, muito menos até logo. 

Paro e penso rápido. Não, eu não preciso de um momento reclamão agora, não tenho tempo. Mas tenho vontade e, sem querer ser chata, armei um sorriso falsificado e disparei para o garçom que limpava a mesa ao lado: 

– Amigo, será que você se enganou no meu pedidinho? – diminuí os termos tentando ser simpática – Eu pedi uma empada de camarão. 

–  E é o que a senhora está comendo. Todas as empadas com essa bolinha de massa em cima são de camarão. Averiguei bem antes de servir. Nunca erro o pedido de uma empada, porque cada uma tem a sua pista. A de azeitona, por exemplo, vem com uma azeitona em cima. 

–  Entendi perfeitamente. –  Tratei logo de falar, antes que ele descrevesse as tais pistas de uma dezenas de sabores. 

Já desanimada. Calei os personagens que ainda insistiam em tentar me convencer a protagonizarem a tal crônica e dei mais uma dentada desconfiada. Nada. Nada de camarão. 

Meu ser que é adoravelmente tranquilo até ter motivos para ser bem malcriado, não conseguiu sossegar neste corpo que queria apenas descansar, escrever e comer camarão. Voltei à questão: 

– Garçom (que já estava deixando de ser amigo), por favor. – Ele se aproximou escabreado –  Nesta empada não tem camarão, não tem nem um pedacinho de um; aliás, ela nunca foi nem visitada por alguém dessa categoria. 

–  Mas a empada tinha a bolinha de massa em cima, eu vi, eu... – Interrompi o moço. 

–  Querido, podia até ter 10 bolinhas, podia ter uma instalação de petit pois em cima desta empada, mas o fato é que pedi uma empada de camarão, e o que consegui foi uma empada com um creme temperado de gosto indefinido. 

–  Mas a empada está ruim? O Maragão não faz empada ruim, vai ser a primeira vez que alguém reclama de uma empada feita por ele – disse o garçom antes de ser interrompido. 

– A empada não está ruim, mas não é de camarão. Eu pedi e, supostamente, vou pagar por uma empada de camarão; e eu não estou comendo camarão nenhum!!!! 

–  Então acho que a senhora não está com sorte, deve ser isso. Porque tenho certeza que o Maragão faz empada de camarão boa, mas a da senhora não veio com nenhum. Na hora dele rechear a sua empada, o camarão deve ter escorregado para a panela, sei lá. 

Respirei fundo, pensei no Dalai Lama, mas as palavras escaparam sozinhas. 

–  Como assim? Então comer uma empada de camarão com camarão lá é sorte? Vocês não colocaram no cardápio “ Empada de Camarão”. Então não deveria ter pelo menos os restos mortais de um na minha empada? 

– A senhora está nervosa. Trabalhou muito hoje? Está estressada? Porque se disse que a empada não está ruim, não entendo por que não quer comer a sua empada. 

–  Ok. Valeu. Esquece. – suspirei com a conformidade dos derrotados, antes de continuar –  Eu só queria comer uma empada de camarão com camarão, mesmo que tivesse um mero traço de DNA do bicho para satisfazer a minha humilde vontade. Acho que uma empada de camarão deve ter camarão, mesmo que custe mais caro, só isso. 

–  Mas aí ninguém vai querer pagar minha senhora. Vai ficar tudo encalhado. O patrão teria até um piripaco. 

–  Entendi – respondi um pouco mais derrotada e mordi o último pedaço da empada que agora, além de não ter camarão, estava fria. 

– Mas quanto custaria uma empada COM camarão, só para eu saber? –  as palavras insistiam em sair, independentes, na esperança de aplacar a minha vontade frustrada. 

–  A senhora não viu no cardápio? A empada de camarão custa R$ 4,00. Quer mais uma?