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Amelie Não Quer Mais


A COVID-19 é um mal que abalou (literalmente) o mundo e ainda não parou de fazer vítimas. Mas, na carona do seu isolamento forçado vieram reflexões, percepções e insights que podem mudar (e melhorar) a maneira de nos relacionarmos com a vida. E uma delas é: Precisamos de tanta coisa?

Logo no início da pandemia, com tempo de sobra e sem cabeça para o que exigisse muita concentração, me ocupei arrumando todos os armários que existem na minha casa. Coloquei na conta até aqueles que ficam no alto de nossas cabeças e nos quais costumamos guardar coisas que ficam anos (ou até o resto da vida) sem serem utilizadas. Então para quê guardamos, não é?

O resultado dessa expedição doméstica foram encontros com lembranças, achados eventuais  de coisas que jurava que tinha perdido e, sobretudo, um monte de coisas dispensáveis: roupas que nunca usei, joias que nunca usarei; uma quantidade de bijuterias maior do que sou capaz de usar mesmo se tivesse a vida social mais intensa das galáxias; sapatos que esqueci, produtos de beleza vencidos, livros que não acabei de ler, outros que nunca abri...

Precisamos de tantas coisas?

E olha que moro em um apartamento mínimo e costumo doar ou vender tudo o que não me serve mais. Não sou apegada, não sou rica e, ainda assim, tenho excessos de quase tudo. Por quê? Porque nos habituamos a querer ter, porque somos vulneráveis a uma sociedade consumista que criticamos, mas a qual servimos. Em pensar que tenho adBlock  no meu computador, não vejo TV aberta há anos e não compro revistas há séculos. Ou seja, a artilharia publicitária não costuma me alcançar. No entanto, podia até ser melhorzinha do que a maioria, mas ainda era uma consumista selvagem. 

E o irônico é que, com tanta coisa, em uma interminável quarentena, não tenho nem como usufruir de nada. Desde que essa pandemia começou, me resumo a usar uma dezena de roupas, um chinelo, um tênis ou uma sandália. E só. Por conta disso, as coisas estacionadas nos meus armários reforçam a conclusão diária de que preciso de bem menos para me completar e ser feliz.

Que tal uma colherada de encanto na vida?

Para começar a resolver a equação dessa gordura consumista, decidi fazer um brechó no Instagram e vender tudo que não me encanta, que não é necessário, que é sobra, desperdício, inutilidade. Escolhi a personagem principal do filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain para dar nome à iniciativa. Meu filme preferido de todos que existem, justamente porque me identifico com a postura da Amélie, essa adorável figurinha sonhadora que faz questão de se concentrar apenas no essencial da vida. Esse armário onde encontramos amizade, criatividade, doçura, graça, gentileza, simplicidade, empatia, leveza e amor de graça.

E pensando sobre, realizei que o nome Amelie Não Quer Mais escolhido para o brechó não foi aleatório. Na verdade, ele tem amplo sentido. Porque, mais do que me livrar de roupas, acessórios e objetos emprestáveis, eu não quero mais gastar tanto tempo e recursos em distrações, frivolidades e consumos de alma... Assim, esse momento tão desafortunado trouxe também um tesouro. Fez, finalmente, a Maria dar match com a sua própria Amélie.