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2021

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Pedra é Pedra.

Sensibilidade não se aprende. Ou tem ou não tem. É isso. Então não percamos tempo em querer ensinar. Sigamos em frente. Artwork: Augustynka

Lampejo

(...) Joana abraçou o livro que lia para marcar a página em que o interrompera e olhava para o nada de cima do terraço, acima dos lençóis brancos que jaziam na corda naquele dia sem ventos. Seu olhar não dava pistas: não era feliz, nem triste; nem vago, nem introspectivo. Sua mãe, sempre observadora, fitou-a naquela cena paralisada que parecia até um quadro e perguntou, enquanto retirava a mesa do café da manhã. — O que que você tem, menina? Onde esse livro te fez passear?   — Saudade...— Joana respondeu sem editar. — Saudade de quê, de quem?... — investigava a mãe — Dele. Mas é uma saudade pura. — ela respondeu serena, enquanto lentamente voltava para o livro. — Eu heim? E como é isso? — É mãe...é uma saudade que não é urgente, não é carente, não é exigente, não é doída, não é inconformada e nem esperançosa. Não é uma saudade querelante. Ela se basta. — explicou Joana sem alterar o tom da voz. — Acho que entendi. Então não é uma recaída, ou é? — a mãe quis ter certeza. — Não, mãe. É c

O que é pior?

 A indiferença ou uma descompromissada benevolência? Para mim é igual. Ambas são estéreis. Artwork:  Catrin Welz-Stein

Entre costuras

(...) Sim, havia uma falta invisível, mas ao mesmo tempo real e robusta Não cessava, entrava por todos os intervalos e pausas, fazia-se lembrar Mas desta vez nada a abrandava, tornara-se incapaz de ser domada, enganada Esgotara as lembranças bordadas de coloridas ilusões, interpretações complacentes Agora existiam apenas dias, horas e preguiçosos minutos incapazes de serem ludibriados Joana então passou a viver um diário sem poesia, talvez um deserto necessário para florescer Artwork:  Agnes Cecile

Azul

Miguel tinha uma personalidade evanescente. Não se detinha em absolutamente nada, talvez nem mesmo em si próprio. Vivia sob a rigidez de uma fórmula construída ao longo das suas ainda poucas décadas para não ter que lidar com nada que fizesse a menor marola no seu autocontrole.  Assim, ele podia ficar com sua jangada plantada em alto mar sem ir a lugar algum por tempo indeterminado. Ele não nadava, não mergulhava, talvez nunca tenha chegado sequer a molhar-se de fato, mesmo estando no meio do oceano. Miguel não se importava com a monotonia daquele céu sempre igual, nem com aquela vastidão de águas inalterável, desde que ele permanecesse exatamente no mesmo lugar.  Seu quadrado no mundo era um quadro monocromático e estático com um horizonte de linhas bem definidas e inflexíveis, onde nenhum elemento escapava ou surpreendia, apenas reafirmava  ad aeternum um estado de coisas inabalável ou, em outra leitura...|paralisado|. Photo: Shutterstock

Anáguas

(...) Não, Joana não gostava de ficar sozinha ou de se afastar das pessoas. Era naturalmente alegre e carinhosa, gostava de correr pelos campos descalça, se jogava sem medo na grama, era capaz de entrar com roupas e tudo no mar, não fugia da chuva — se deixava molhar até encharcar-se... Mas, ela finalmente se deu conta de que sua sensibilidade tinha muitas anáguas e não permitia mais que ninguém pisasse nelas. Photo: Laura Hanifin