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Mostrando postagens de 2013

Cena Final

Um olhar demorado na direção dele, seguido de um suspiro íntimo e longo, selou a despedida. Ela desistiu e partiu naquela noite que parecia ser um celeiro de oportunidades, mas que ela já sabia que no final ia ser apenas um espaço vazio de frustrações. Ela cansou de tentar, porque tentar cansa, bloqueia movimentos, atrasa cursos. Ela cansou de esperar em portos, quer seguir em frente, escolher outros navios.
Ela balançou com a indisfarçável comoção dele quando a viu. Ficou sacudida quando em um salão gigante ele escolheu passar exatamente no quadrado que ela ocupava, arrastando o pescoço a centímetros do seu rosto. Mas, seu corpo decidiu por ela e saiu do quadro em que ele estava, partindo resoluto em direção à rua úmida e desaconchegante.
Sua silhueta aparecia nas sombras, menos esguia, menos vibrante, mas de alguma forma mais nítida, mais consistente. Os suspiros não paravam, como se quisessem expulsar em conta-gotas as possibilidades agora para sempre abandonadas.
Imagens, sentime…

Trocas

As imagens dele eram como um videoclipe tátil. Ela via e sentia pedaços de pescoço, partes de pele e de cabelos. A resposta da pergunta que ela fez, a partir de um livro que estava lendo, sobre o que mais queria fazer com ele é essa: misturar-me em abraços perfumados por seu cheiro, em movimentos desordenados, sem forma, afetados pela textura da sua pele imperfeita, da sua barba, da sua roupa mal passada.
Quando pensava em sexo com ele a imagem era menos fragmentada, na verdade era bem focada, intensa, cheia de ritmos combinados, com corpos quase sempre na vertical, inclinados, recostados, safados, provocando expectativas, convenções e estabilidades físicas. Um sexo com muito rosto no rosto, com muita proximidade, temperado com respirações aquecidas, vozes baixas e altíssimos teores.
Não, não havia nada nem remotamente convencional nesse encontro que insiste em não ser casual, em surpreender pelo que evoca e em não acontecer de fato. Seria um encontro intelectual-poético? Quem sabe …

Telegrama

Com breves palavras minhas lacrei nosso passado. Não havia mais o que dizer; os sentimentos arrombaram a porta e silenciaram o outrora. Estava claro que nos amávamos ainda, talvez até mais, mas também era evidente que fizemos tudo errado. Não podíamos recomeçar, era essencial zerar.
Até aqui seguimos roteiros que não escrevemos; tivemos atitudes ensaiadas por nossos antepassados, exigimos o que nem queríamos. Quem será era aquele casal que ousou viver de maneira tão insensata nosso amor em nosso lugar?

Para libertar o que em nosso peito explodia, e que contrariava o enredo até então apresentado, nos separamos e acabamos por nos transformar em nós mesmos. Um presente raro.
Descobri que eu não era ciumenta, como aquela mulher que a tudo vigiava; percebi que nem ligava se outras perto dele chegavam; realizei que não me incomodavam seus eventuais olhares admirados. Afinal, aquele homem estava vivo, seu sangue pulsava, seu gosto pessoal a tudo permeava, independente, mas era a mim que ele…

Fato.

Eu gosto de gente fora da fôrma.




Photo: Unknown artist

Sopro de oração.

Que Deus me ajude a conseguir ser o resto de mim.

Artwork: Adam Hale


Doce Imoralidade.

"No final das contas é imoral esperarmos respeito aos NOSSOS valores. de quem não tem direito a estudar, comer bem, morar com o mínimo de conforto; ou de quem desconhece o que é ter infância, o que é ser cuidado e amado; ou de quem é obrigado a achar que o futuro é apenas o dia seguinte. Que conta imatemática é essa que insistimos em fazer?"
Artwork: Uğur Gallenkuş

Tango Flamenco.

E aqui estou eu,
na terra de outros,
expatriada,
buscando em outras margens
um sentido para um inconcluído poema.

Depois de milhas e milhas
de singularidades estrangeiras,
outros sorrisos,
outros homens,
outras gentilezas,
continuo aqui, pensando
como no exato momento em que parti.

São pensamentos flamencos,
cortados por um lamento doído
que nascem na fonte do que se foi,
do que nunca foi,
do que não será,
do que não está aqui.



Artwork: Anna Razumovskaya


Poemas de amor não existem!

Poemas de amor existem?
Se existem falam de quê?
Da felicidade, do céu azul e dos mares?
Poemas de amor não existem porque são chatos!

E quem vai querer ler um poema de um amor que é de outros?
Quem pode regozijar-se com uma alegria que não lhe pertence?
Poemas de amor não existem porque são abstratos!

Poemas de amor discursam sobre amores idealizados;
confortáveis sentimentos platônicos,
estáticos por não serem correspondidos,
ou simplesmente inalcançáveis.
Na verdade, o que existe são poemas sobre amores desagradáveis,
poemas de desamor!

Afinal, se alguém está ao lado de outro alguém que lhe inspire tal tema,
não se deterá a fazer poemas, se abandonará a fazer amor.


Artwork: Catrin Welz-Stein




Por todos os poros...

Ela se declarava por todos os poros; fazia passeatas, ostentava cartazes.
Diziam até que tinha no corpo uma coleção de tatuagens
Quando uma roda se formava no centro da metrópole, era ela que sambava e cantava desinibida.
No fim de semana na praia, flanando alegre nos aviões, lá estava sua paixão escancarada em bandeiras multicores.
No dia a dia, todos ficavam intrigados com as figuras abstratas recorrentes nas roupas que ela usava. 
A quem perguntasse, ela explicava, entre gostosas gargalhadas, que suas estampas eram sobre um amor, um peito e uma flecha.

E as horas passavam apressadas, enquanto pelas ruas ela compartilhava pensamentos, crônicas, poemas e cartas abertas. 
Sim, ela se declarava por todos os poros; enquanto ele sempre dizia a mesma coisa quando casualmente a via: Oi querida, como vai a sua família?

Photo: Ravshaniya

Entre amores

Há amores que são donos das nossas melhores lembranças
Há amores que com meros pensamentos nos arrancam sorrisos
Há amores que nos dão outros amores, filhos
Há amores que provocam a nossa alma com lágrimas
Há amores que só prestam como centelhas de poemas

Mas tudo vale mesmo a pena?

Se o coração ama
Se o coração respira
e oxigena a vida
Vale!

Artwork: Matheus Lopes

Os escritores...

E os dois se reencontraram entre livros. Ele em uma turnê promocional, ela em uma pesquisa para um novo trabalho. Quando os olhares se esbarraram, ambos ficaram constrangidos; ele desconcertado (como sempre) com a certeza do interesse dela, ela atrapalhada com o súbito aumento de temperatura que a presença dele sempre lhe causava.
Sem ter como desertarem daquele momento descombinado, se cumprimentaram, sorriram e elegantemente disfarçaram. Podiam ter parado ali, afiançados pela cordialidade e por um estudado espanto pela coincidência. Mas, destituídos de matemáticas exatas, continuaram conversando e acabaram relaxando em temas amenos em uma distância tacitamente calculada por ambos.
Mas o destino pretendia se divertir mais: colocou os dois juntos não só em uma cidade alheia ao cotidiano de ambos, mas no mesmo quadrado de um hotel. Ao se darem conta, os risos ficaram nervosos, mas foram aplacados por aquele ensaiado enredo desinteressado escrito a quatro mãos. Acabaram jantando juntos…

Um cheek to cheek com você. - Por Vianne Rocher

E eu que tinha ficado sambada, depois que um certo alguém bateu em retirada do conceito original de um amor inventado, me peguei hoje em um cheek to cheek com outro que me abateu com seu charme fácil. É bom deixar claro que esse fácil não é igual a vulgar; é igual a descomplicado.

Fato é que um homem fica ainda mais homem quando te enxerga fêmea: alvo merecedor de delicadezas, considerações e destaques; quando nada precisa ser muito discutido, nem explicado; quando cada um coloca na mesa suas melhores cartas não para competir, mas para criar um particular baralho.
Quando um homem fica relaxado a ponto de perceber as notas de uma mulher, como se desvendasse uma invulgar fragrância, é o momento em que ela também torna-se mais receptiva e mais singular. E é nessa fração de momento, quando ao invés de procurar se reafirmar, ele escolhe perceber e sentir, que um descobrimento pode acontecer e fluir; no melhor e mais exato sentido que essa palavra pode ter.
Tenho observado que a maioria d…

Safadeco, safado ou safadão? Por Vianne Rocher

Caríssimo Lucrécio Armando,
Como eu já havia dito em crônica de outrora, meu ser é adoravelmente tranquilo até ter motivos para ser bem malcriado e você, querido, implorou pelo meu lado B! Muito sintomático você dedicar seus "loopings" e sua "tensão vocabular" à primeira regateira que resolve gastar português com você. Afinal, faz muito pouco que há confessado, depois dos meus febris desejos desvelados, que é "movido, como qualquer macho da espécie, pelo medo."
Ora, ora, seu safadeco safado, acreditou mesmo que eu iria deixar barato ver você transformar nosso samba-jazz em sambalelê? E então qualquer 'cadência literária" de uma "delícia da hora" pode mexer e remexer com nosso caso como se fosse um banal mingau encaroçado? E você não sabe que até as melhores moquecas se estiverem por demais apimentadas ficam impossíveis de serem apreciadas?

E eu achando que você, querido, iria se destacar no meio dessa mesmice reinante de "vem aqui…

Safadezas, sabores e delícias. Por Vianne Rocher

Ah...Lucrécio, um dos ditados que mais amo na vida é o "cuidado com o que você quer, porque você pode conseguir". Não foram poucas as vezes que recebi cantadas perseverantes, atenções realçadas, verdadeiras configurações de dias inolvidáveis e no H da hora, do homem e do hoje, nada!
O fato é que as pessoas adoram desejar; querer o que lhes parece impossível; arquitetar engenhosas formas de obtê-lo para, em seguida da conquista do objeto, perecerem e voltarem remansadas para suas vidas ordinárias. Afinal, atirar-se à falta de contornos exatos de uma paixão incomensurável é coisa para quase nenhum!
Você, meu safadeco amado, em busca de águas raras atravessa terras, pula muros, se prepara para arrombar portas mas, se por um comparsa acaso elas já estão abertas, hesita um pouco com a surpresa para depois avançar com sede ainda maior na empreitada. E só intrépidos como você, meu caro amante temperado no dendê, descobrem as delícias do outro lado; ampliam a estreiteza dessa vida…

Lucrécio, meu safadeco. Por Vianne Rocher.

Solteirinha da Silva, andava meio enfastiada com a falta de singularidade dos xavecos. Não conseguia mais ser audiência para interesses genéricos que à menor resistência, talvez buscando apenas um pouco mais de apuro, virava logo um tanto faz como tanto fez. A companhia de um copo de bom vinho, um livro querido, ou um filme agradável, estava sendo melhor do que ficar à mercê de galanteios degenerados.
Mas mesmo tranquila e inebriada com meus simplórios entretenimentos eleitos, volta e meia sentia falta de alguma coisa; na verdade alguma coisa de homem. Não, não era de sexo, porque isso nenhuma mulher que realmente quer tem dificuldade de obter; isso é fato. Também não era de carinho, porque isso também conseguimos da família, de amigos e até de desconhecidos educados. 
Sem entender aquela sensação de pouquidade, enchi mais um copo de vinho e resolvi ler umas crônicas alheias. Me diverti aqui e ali, me encantei aqui e acolá, até chegar a umas palavras deliciosamente insensatas que me …

Perfeita proporção.

Eu não quero, não preciso

e nunca mais vou ver

o seu des sorriso
o seu des apego
o seu des atino
o seu des afino
o seu des amor

Artwork: Adam Hale




O beijo

Tascou-lhe um bilhete de amor à queima roupa. Talvez precipitado, sem encontros marcados, sem avisos sinalizados. Na verdade, tratou-se de um combinado (quase) à sua revelia; um conluio entre as palavras e os sentimentos a favor de um certo desejo. 

O bilhete foi na carona de um livro emprestado. De fato, o assunto deveria ser restrito ao trabalho, mas desejos sempre têm pressa e quando acham um chofer são assim: escolhem sempre o caminho mais rápido. 
Nos dias que se seguiram, não houve nenhum tipo de resposta ou comentário do destinatário. Ele deveria ter desconfiado, mas sabemos que um ser enamorado não lê com clareza nem outdoor. 
Mas havia a festa do tal trabalho compartilhado; eles tinham data para se encontrar. Ele queria muito isso, mas a oportunidade que antes poderia ser uma celebração, agora ameaçava tornar-se um constrangimento. Aquele doce gosto de framboesa, de repente, amargou. 
Pensamentos desconcertantes fizeram a festa bem antes na cabeça dele: Será que ela o achou…

Fragmentos (2)

Pego o celular. Tudo o que eu vejo registrado no visor é o nome do remetente da mensagem e um ponto. Isso mesmo. Apenas um ponto. Levo a sério. Nem de longe penso em responder. Não vou escrever esse enredo, mais uma vez, sozinha. Conheço o final. Se não tem coragem, meu caro, que seja então um ponto final. 
Volto à TV. Fico zapeando. Quero encontrar um filme inspirador, um romance dos bons, uma emoção de baixo custo. Adoraria rever pela milésima vez o filme ‘Orgulho e Preconceito’, baseado no livro de Jane Austen. 
O fato é que não sou capaz de me acostumar com a falta de sutilezas e de originalidade nos interesses. Estou com intolerância ao sexo sem endereço, à falta de educação, às emoções pulverizadas. Desde quando o amor virou matéria exclusiva dos filmes e livros?

Bem, se existe alguém como eu por aqui, deve existir outro da mesma matéria-prima por aí. E afinal, é possível dezenas de autores de variados séculos, gêneros, gerações, culturas e idiomas conseguirem escrever sobre a…

O Camarão Está na Página em Branco.

Estou eu aqui sentada em um bar restaurante, em uma brecha de um ocupado dia, para comer alguma coisa e aproveitar a breve pausa para escrever uma crônica encomendada. Na minha cabeça passam mil assuntos, dezenas de possíveis personagens que cruzaram meu caminho nas últimas semanas e que, agora, defendem seus motivos para saírem do anonimato e virarem estrelas do texto programado.
Enquanto ouço os argumentos de um por um na minha cabeça, peço ao garçom uma Malzebier que, por alguma razão, sempre me consola em momentos de alta tensão. Para acompanhá-la, peço também uma indefectível empadinha de camarão. Os pedidos chegam e eu, depois de um providencial suspiro para oxigenar a mente e o corpinho, dou uma ansiosa mordida na empadinha...Nhac! 
A empadinha amiga está quentinha, bem feitinha, bem temperada, mas acho que pedi uma empada de camarão. Curiosamente, esse crustáceo que tanto amo, com toda a certeza do mundo do meu estômago, não passou por essa empada, não disse alô, nem bom dia,…

Alvo!

Nesse turbilhão de vozes, cores, luzes e apelos
É difícil você se achar, saber quem é e não se perder
Temos que buscar isso sem medo, pressa ou desistências.
No fim das contas esse é o único desafio verdadeiro que temos
Tudo o que está em volta são projeções, probabilidades e estatísticas
Photo: Andrzej Gawrylczyk


Trilhos vazios...

O que mexe comigo não é mais ele; é a lacuna.



Photo: Joël A. 🇨🇭