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Mostrando postagens de Abril, 2013

O beijo

Tascou-lhe um bilhete de amor à queima roupa. Talvez precipitado, sem encontros marcados, sem avisos sinalizados. Na verdade, tratou-se de um combinado (quase) à sua revelia; um conluio entre as palavras e os sentimentos a favor de um certo desejo. 

O bilhete foi na carona de um livro emprestado. De fato, o assunto deveria ser restrito ao trabalho, mas desejos sempre têm pressa e quando acham um chofer são assim: escolhem sempre o caminho mais rápido. 
Nos dias que se seguiram, não houve nenhum tipo de resposta ou comentário do destinatário. Ele deveria ter desconfiado, mas sabemos que um ser enamorado não lê com clareza nem outdoor. 
Mas havia a festa do tal trabalho compartilhado; eles tinham data para se encontrar. Ele queria muito isso, mas a oportunidade que antes poderia ser uma celebração, agora ameaçava tornar-se um constrangimento. Aquele doce gosto de framboesa, de repente, amargou. 
Pensamentos desconcertantes fizeram a festa bem antes na cabeça dele: Será que ela o achou…

Fragmentos (2)

Pego o celular. Tudo o que eu vejo registrado no visor é o nome do remetente da mensagem e um ponto. Isso mesmo. Apenas um ponto. Levo a sério. Nem de longe penso em responder. Não vou escrever esse enredo, mais uma vez, sozinha. Conheço o final. Se não tem coragem, meu caro, que seja então um ponto final. 
Volto à TV. Fico zapeando. Quero encontrar um filme inspirador, um romance dos bons, uma emoção de baixo custo. Adoraria rever pela milésima vez o filme ‘Orgulho e Preconceito’, baseado no livro de Jane Austen. 
O fato é que não sou capaz de me acostumar com a falta de sutilezas e de originalidade nos interesses. Estou com intolerância ao sexo sem endereço, à falta de educação, às emoções pulverizadas. Desde quando o amor virou matéria exclusiva dos filmes e livros?

Bem, se existe alguém como eu por aqui, deve existir outro da mesma matéria-prima por aí. E afinal, é possível dezenas de autores de variados séculos, gêneros, gerações, culturas e idiomas conseguirem escrever sobre a…

O Camarão Está na Página em Branco.

Estou eu aqui sentada em um bar restaurante, em uma brecha de um ocupado dia, para comer alguma coisa e aproveitar a breve pausa para escrever uma crônica encomendada. Na minha cabeça passam mil assuntos, dezenas de possíveis personagens que cruzaram meu caminho nas últimas semanas e que, agora, defendem seus motivos para saírem do anonimato e virarem estrelas do texto programado.
Enquanto ouço os argumentos de um por um na minha cabeça, peço ao garçom uma Malzebier que, por alguma razão, sempre me consola em momentos de alta tensão. Para acompanhá-la, peço também uma indefectível empadinha de camarão. Os pedidos chegam e eu, depois de um providencial suspiro para oxigenar a mente e o corpinho, dou uma ansiosa mordida na empadinha...Nhac! 
A empadinha amiga está quentinha, bem feitinha, bem temperada, mas acho que pedi uma empada de camarão. Curiosamente, esse crustáceo que tanto amo, com toda a certeza do mundo do meu estômago, não passou por essa empada, não disse alô, nem bom dia,…