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Telegrama


Com breves palavras minhas lacrei nosso passado. Não havia mais o que dizer; os sentimentos arrombaram a porta e silenciaram o outrora. Estava claro que nos amávamos ainda, talvez até mais, mas também era evidente que fizemos tudo errado. Não podíamos recomeçar, era essencial zerar.

Até aqui seguimos roteiros que não escrevemos; tivemos atitudes ensaiadas por nossos antepassados, exigimos o que nem queríamos. Quem será era aquele casal que ousou viver de maneira tão insensata nosso amor em nosso lugar?

Para libertar o que em nosso peito explodia, e que contrariava o enredo até então apresentado, nos separamos e acabamos por nos transformar em nós mesmos. Um presente raro.

Descobri que eu não era ciumenta, como aquela mulher que a tudo vigiava; percebi que nem ligava se outras perto dele chegavam; realizei que não me incomodavam seus eventuais olhares admirados. Afinal, aquele homem estava vivo, seu sangue pulsava, seu gosto pessoal a tudo permeava, independente, mas era a mim que ele desejava. Por que bradei tanto contra nada?

Ele também se debateu, e então se aquietou. Percebeu que minha individualidade exacerbada não é falta de amor, é excesso de amor próprio. Quem sabe, um tipo de indenização por um histórico familiar abusivo. Ele conseguiu entender que a minha ideia emperrada de quartos totalmente separados, mas que não aparta quem quer ficar junto de fato, não é má; é ordeira de vontades diferenciadas de dois seres criados em desiguais planetas na terra.

Descobrimos que somos ímpares no mundo e distintos de tudo o que já pensaram sobre nós. E assim, respeitamos as impressões digitais de nossas existências; deixamos o medo de lado e, com ele, a confortável certeza que vem das regras. Passamos a emprestar nossos dias à deliciosa curiosidade de viver um amor por caminhos não traçados.

Reencontrados em nós mesmos, agora não precisamos mais discutir, competir, determinar, cobrar e tampouco entender. Finalmente, fomos devidamente apresentados ao nosso amor. E foi assim que com breves palavras minhas lacrei nosso passado.

Oi, tudo bem? Meu nome é Céline. E o seu?


Artwork: Vik Muniz