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Mostrando postagens de 2014

Trilhos Desconcertantes

Viagem idiota! Penso, enquanto abandono os meus guias de viagem no vagão-restaurante; que sejam de melhor serventia para viajantes mais deslumbrados.
De repente, irrompo em uma gargalhada patética. Todos me olham, talvez indagando qual teria sido a minha motivação já que estou imóvel há horas, atada à janela, instigada por esse cenário que não muda.
Danem-se! Ri porque lembrei que os guias que larguei são todos em português e de que nada vão valer em um trem babel para Marselha. Afinal, um guia sem compreensão das suas palavras é como um álbum de fotos para cegos.
Dou outra gargalhada. Se vier a terceira pensarão que estou tendo um surto. Que pensem. Achei graça ao pensar que sou a única brasileira nesta viagem. E por que seria? Brasileiros dão em árvores em absolutamente todos os lugares. Já percebeu isso? Estou mal humorada.
Falo sozinha. Dou risadinhas sem motivos. Onde está você?
Meu estômago embrulha. Começo a sentir aquela onda que tento evitar há semanas. Respiro fundo. Olho p…

Faxina

Para limpar você tem que desarrumar 
Sem medo da bagunça das gavetas
Sem receio da sujeira dos cantos
Sem preguiça de explorar tetos
Sem pensar no cansaço
Sem definir tempo

Um desafio...

De foco, paciência e força.
Artwork: Christian Schloe 

Segredo

É chocante como ainda precisamos de provas físicas, quando silêncios, respirações e toques sutis são declarações muito mais escandalosas. 
Será que é porque provas físicas podem ser expostas, podem ser submetidas ao cruel tribunal das opiniões alheias? Esse mesmo que adoramos bradar que não importa? 
Afinal, porque exigimos provas para então acreditar?

Ela sentia uma vergonha quente de ter provocado a declaração dele, quando todo o seu corpo já sabia o que se passava há muito, muito tempo... 
E agora suas palavras rejeitadas sofriam por terem saído.
Não há sombras para acolher o que queria permanecer escondido
Não há mais o conforto do que não foi dito.
Agora há ela, ele e todas as impossibilidades.
Muita coisa para coexistir no pequeno espaço entre os dois.

Photo: Brenden Fleming

Cinza

A respiração encurta
As vísceras doem
O coração aperta

Os ouvidos fecham
Os olhos cegam
Os ossos travam

Os fluídos cessam
As unhas quebram
A pele resseca

Os cabelos caem
O corpo para
A voz cala

Tudo desacontece
Não é enfermidade
É desesperança

Artwork: Christian Schloe