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Mostrando postagens de 2016

Aleppo

Olhos cansados que gostariam de não ver Corações que batem com dores Sentimentos atropelados Medo Terror Abandono  Incompreensão Onde estão todos Onde está o mundo globalizado Onde está o poder das redes Onde esta a sua humanidade Em que Terra estamos Existe vida aqui Existe irmãos Não adianta virar hashtag Não adianta ser trendtop Ser assunto não adianta Por que não estamos nas ruas Por que estamos com esse conformismo conveniente Holocausto Eles não querem virar história Eles querem apenas a própria vida de volta E você Como ficaria sem a sua Sem poder proteger seus filhos Sem poder nada além de respirar e presenciar o próprio massacre Onde estamos nós agora O que fizeram com a gente Porque estamos deixando Para onde vamos Aleppo.

Image: Documentary 'Madness in Aleppo'

Enough!

Novo Inusitado Inesperado Abertura Liberdade Permissão Que venha o que nunca foi dito  Que aconteça o que nunca foi feito Chega de tudo o que foi visto Não dá para ver as mesmas cenas Não dá para saber o final de tudo Não aguento mais assistir tanto gado passando sob a minha janela Vou gritar bem alto Ficar nua Ficar muda Me vestir Gritar de novo Com ou sem expectador Com ou sem aplausos Com ou sem tomates Não importa Não faz diferença Se o meu roteiro servir só a mim Que seja Só não serei mais personagem de histórias que não me representam Chega Eu finalmente sou eu mesma Doa a quem doer Aceite ou não Goste ou não Problema muito seu O meu eu resolvi Fui Voltei Cheguei Estou aqui.



Artwork: Aykut Aydoğdu



Lou Andreas Salomé

"Ouse, ouse... ouse tudo!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda ... a roubá-la! "


Lou Andreas Salomé


Artwork: Fabrizio Cassetta | Fineartamerica

Retomada

Choque Percepção de que o caminho estava errado A volta terá que ser na contramão Um perigo Mas quando sabemos que temos que voltar Vale o risco O que importa é ser fiel ao seu próprio fluxo Voltar pra luz as vezes significa caminhar em um pouco de escuridão Não me permito mais ficar parada em encruzilhadas Nem aceito caminhar nem mais um passo em estradas que não vão me levar a lugar algum Volto sim Volto pra mim Que me perdoem os que ficarem pelo caminho Se achem também Honrem o encontro comigo Cada um com seu destino Fui.
Photo: Olga Fine Arts

Fim

Os pés doem A costura da blusa incomoda Percebo um dente que deve estar com problemas A pele está sentida O sexo está cansado Os músculos reclamam O corpo funciona mal Puxo pouco ar Fim de ciclo Fim de fase Fim do enredo The end na tela Done Vejo na frente Destino Tem coisas que só são entendidas depois Tem pessoas que só são lidas após Olho em volta os rastros do ciclone Muita coisa destruída Outras reveladas Poluição Oxigênio novo Fertilização Papel na máquina História nova Seja qual for Pouco Importa Créditos.
Artwork: Siv Storøy3 3

Neale Donald Walsch

"Lembre-se de que esta sempre se criando, decidindo quem é o que é. Você decide isso em grande parte através das escolhas que faz quanto a quem ou o que desperta a sua paixão."
 Neale Donald Walsch

Artwork: Gil Dekel

Move on...

Para desapegar temos que entrar em contato com nossos desejos
Olhá-los na cara sem medo, sem se enganar nem por segundos
Enfrentar suas tentações sem fugir e em seguida arregar Confessar para nós mesmos o que queremos
Rasgadamente, sem edições, sem filtros
E perceber que queremos muito
Mas não a qualquer preço
Então, se é alto demais
É melhor ir... 
Artwork: Paul Bond

Base

Para voar, os pássaros partem do chão...
Photo: Wolkove

I do...

Não estou apta a dizer não
a quem vem na contramão
a quem chega sem julgar
a quem deixa ser

Não estou apta a dizer não
a quem contraria o bom senso
a quem desafia expectativas perfeitas
a quem se deixa revelar

Não estou apta a dizer não
a quem não se rotula
a quem não pede bulas
a quem simplesmente é

Não estou apta a dizer não
a quem não tem GPS
a quem abre a porta pra mim
a quem recebe minhas bagagens

Não estou apta a dizer não
a quem turbina meus desejos
a quem me vira do avesso
a quem redefine meu prazer

Não estou apta a resistir você, baby
Bora?


Artwork: Aykut Aydoğdu

Êxodo

Nem toda conexão tem sexo As vezes é apenas motivação
Nem todo sexo tem conexão
As vezes é só ação e reação

Nem toda motivação tem nexo
Mas as vezes atinge todos os plexos
Conexão, sexo, plexos e nexo é a perfeição
Não me atenho mais a tal matemática complexa
Meu destino é o hoje


Vou ser feliz agora
Photo: Agniribe Mada


Recovery

Somos tudo o que temos
Então temos que ser a nossa melhor versão
O importante é usar tudo o que rola na vida
Para constantes encontros com você mesmo
O foco deve ser o movimento...
Quem tem que ficar, fica
Quem quiser ir, que vá.



Artwork: Unknown artist

Mergulho

O medo as vezes é como um bote salva-vidas para certas pessoas
Elas podem ficar ali, quietas, seguras, resgatadas de si mesmas Sem lançarem-se ao mar para evitar frustrações e riscos
E escaparem ilesas dos maremotos e das revoluções
Que acertos incríveis costumam provocar...
É uma escolha deliciar-se nas ondas
Apesar dos possíveis perigos
Ou apenas ficar boiando
Em águas amenas...
Artwork: Hilary McCarthy


Pequena Morte

Era um primeiro encontro, cheio de informações desconexas, histórias que não se completavam, alegrias tolas, afinidades gratuitas. Falaram e riram sem reter nada. A questão era apenas estar perto, poder estar dentro.

As afinidades foram tão intensas e combinadas que, por mais de uma vez, ele parou no meio e a encarou; em outro momento foi ela...medo?...Mas ainda não havia respostas e nem tempo para procurá-las.
Na despedida, meio desconcertada, ela foi saindo do carro sem deixar o aval do seu beijo. Ele não deixou: a puxou pelo vestido.

Quando ela virou, a expressão no rosto dele falou mais do que palavras. Ela então pulou em seu colo, segurou seu rosto, afundou as duas mãos em sua barba, olhou em seus olhos e deu-lhe um descansado beijo.

Ficaram ali, algum tempo, inertes por fora e aos turbilhões por dentro, até se soltarem com uma desafogante suspirada.
No dia seguinte, um compromisso qualquer marcado na vida de antes afastou os dois da continuação desse eloquente enredo.

Com o com…

Lição

A vida concede nosso primeiro respiro e retirado nosso último fôlego

A vida nos empurra, nos move e nos joga de um lado para o outro  E também nos paralisa quando ficamos perplexos com os fatos
A vida corre paralela mas por vezes determina nossos passos
Sem se importar com quem somos ou no que acreditamos
A vida sempre nos desafia a segurarmos as suas rédeas
Para sermos eficientes coautores do nosso destino

A vida sem pena nos dá e ao mesmo tempo nos tira Nos afasta de amores, de amigos e de certezas

A vida nos bate com realidade e rotinas Nos prende pra aprendermos a  soltar

A vida revela que só evoluindo
Podemos saber para onde ir

A vida nos dá o sopro
Nós içamos as velas

A vida venta
Navegamos

Artwork: Alex Chernigin



Casamentos

As vezes a gente não percebe e desama...
As afinidades enfraquecem
Os objetivos desafinam
A harmonia destoa

Dói, resistimos, lutamos e, por fim, acabamos assumindo.

Isso se você for honesta com você mesma e com o outro
Se for, há sofrimento, mas a vida segue, a amizade fica

As vezes a gente tem que desamar...
As afinidades são atropeladas
Os objetivos massacrados
A harmonia detonada

Dói, rasga, fere, causa hematomas e, por fim, acabamos fugindo.

Isso se você tiver mais amor por você mesma do que pelo outro
Se assim for, não fica nada, nem o bom do passado interessa.

O ex-amor pode até te chamar de piranha em praça pública
Que você simplesmente não liga.


Photo: Benoit Courti




Então...

Não entendeu? Beleza, então deixa pra lá.
Ficou com medo? Ok, então esquece.
Não é bem isso? Ah tá, então foi mal.
Não quer? Combinado, então fui.

Tem gente que te dá preguiça...
Photo: Fineartamerica



Fotografias

Vejo suas fotos com a certeza de que você não faz mais parte do meu álbum
Que perdeu qualquer timing, apesar de terem sido muitos
Que seu sim  não durou mais do que alguns segundos

Vejo seu sorriso forçado de quem está morto de tanta alegria
Denunciado pela história diferente que seus olhos contam
Abstinentes de verdades em sua vida

Vejo que continua me olhando de longe, sem querer chegar muito perto
Averiguando se continuo no mesmo lugar esperando o seu tempo
De assumir nosso encontro indiscreto

Vejo que ainda prefere as tapiações, ou melhor, que fez uma escolha por elas
Que optou pelo raso lugar comum da zona de conforto
De achar que tudo é uma grande festa

Vejo que em tempo algum vai quebrar regras, se jogar, ligar o foda-se
Não para fazer bobagens, infantilidades ou alguma outra estupidez de sempre
Mas para ser você completamente

Vejo que sua sensibilidade, criatividade e senso incomum foram soterrados
Bem debaixo do seu nariz, em frente aos meus olhos, ao sabor de aplausos falso…

Futuro on the rocks

Na geladeira, rótulos de cervejas ao acaso
No ar, a música da hora toca no automático
Cream cracker com pasta vira petisco
Os assuntos não são concentrados
As risadas, livres e desconcertadas

Os temas não serão nunca lembrados
Os motivos não são importantes
Os propósitos não são exatos
As buscas não são precisas

As atenções não têm foco

É apenas uma interseção de afinidades
Coincidências estratégicas de idades
Resenhas de uma geração
De uma vida em gestação
Um interlúdio para a real-idade

E então depois que o tempo já foi instalado
Essa desimportância ganha relevância
É o cimento que estabiliza solos frágeis
O oxigênio nas nuvens dos desencontros
O sol em um mundo de óculos escuros

Onde as escolhas são conscientes
As decisões são mais fáceis
A jornada encontra sentido
O equilíbrio é uma conquista
Mas nada é tão leve como antes

Artwork: Scott Clendaniel

Contrastes

E o que seria eu sem os meus desamores?

Sem um enredo para minhas  palavras
Sem um alvo para meus sentimentos
Sem encarar as minhas incertezas
Sem um desastre entre as vitórias

E o que seria eu sem viver meus dias?

Sem procurar o que me basta
Sem inevitáveis desencontros
Sem despertar com cansaços
Sem querer o que me falta

E o que seria eu sem errar?

Sem às vezes me perder
Sem tentar me achar
Sem me perder
Sem acertar

E o que que seria eu sem me entender?

Sem me desconhecer
Sem me reconhecer
Sem me conhecer
Sem me ser

E o que seria eu?

Senão eu mesma
Senão eu
Senão
Se


Artwork: Aykut Aydoğdu



Sem fôlego

Os olhares se encostaram
Era possível sentir o toque calmo
.
.
.

Íntimo

O mundo em volta embaçou
Saiu de foco, só ele ficou nítido
.
.
.

Silêncio

Ele não se movia
Sua imagem congelou como em um retrato
.
.
.
Impacto

De repente tudo voltou a funcionar
A cena ficou rápida, um tiro certo
.
.
.

Encontro

Quando ela se deu conta, estava entregando um cartão
Na sequência, ele estava no feed dela
.
.
.
Certeza

E agora estavam ali, no mesmo quadro
Abraços fortes antes de nomes e sobrenomes
.
.
.
Quereres

Nariz com nariz, cheiros, texturas, temperaturas
E um inédito hiato bom no peito
.
.
.
Suspiro




Artwork: Alex Chernigin

Noite inconclusiva

Pela vidraça do McDonald's da Times Square, ela lança um olhar longo pra rua
De onde está, observa pessoas zanzarem pela madrugada pós alguma coisa
Está no segundo andar, mas parece que esta mais distante, fora dali
Alguns caminham sozinhos, devagar, sem linhas retas, errantes
Outros riem em grupos; ela não os ouve, mas parecem felizes
Outros são um, na verdade dois, apertados por um abraço
Ela é um pouco de todos e também não é nada daquilo
Por isso, quando ela se perde, adora ir para aquele lugar híbrido, vago
Fast food, fast images, fast moments; um lugar onde nada é retido
Aquele anonimato forçado lhe confere uma sensação de conforto
Quem é ela, quem são todos, apenas um monte de ninguéns

Ela continua olhando pela vidraça, ofuscada pelo neon do letreiro abaixo
O excesso de cores e apelos ao redor torna tudo menor e simplificado
A poluição de sons e imagens provoca-lhe uma meditação ao inverso
Enquanto vestígios dos desejos e das intenções de horas antes
Se dissipam no murmúrio…

Parênteses

Sem local definido
Não importa, tanto faz
Urgente mas na hora que der
Qualquer tempo vai ser tudo.

Espera-se que seja intenso
Revigore sentidos domesticados
Abra pupilas, poros, plexos, nexos
Provoque ondas em meio a marolas

Datas são acertadas, a hora combinada
Tudo tem que acontecer em paralelo
Sem tocar as linhas limítrofes
Mesmo que sejam invisíveis.

É declarado, escancarado, escandaloso
Mas tem que permanecer super secreto
Trata-se de um escape, um adendo
Com significado controlado

Mas, para quem é um texto inteiro
Resumir-se a um parênteses
Que não altera o sentido
Não interessa.

Artwork: Jill Battaglia






Jump!

Tempo prévio, fantasia
Os segundos se arrastam
Irritando a pressa da ansiedade

Desejos saem pelas roupas, descosturam
As expectativas desafiando a realidade cética
A pressão, as impressões, o primeiro encontro

E então, será uma confirmação, uma ilusão, um desatino, um nó?
Tudo pode surpreender, inclusive para melhor e por que não?
O melhor talvez esteja no exato momento do não saber
Onde tudo pode ser ou tudo pode ser coisa nenhuma

O jogo não é controlar os resultados, é apostar

Photo: Nico Stinghe




Bate e volta...

Nunca tenha medo de cair
Depois que aprende que do chão não passa
Levantar será, para sempre, possível e mais fácil
E então, você vai entender que descer ou subir
É apenas um dos exercícios da vida
Desenvolve os músculos
Nos deixa mais fortes
E se doer, passa.

Artwork: Paul Bond




Sinos

Se não é recíproco,
Que se esvaia Que se vá Ventos...


Artwork: Arlane Crump

Para você que esqueceu do amor...

Sim, ver flores em tudo e rir sem o menor motivo é clichê...
Acionar a poeta, compositora, artista, criadora via coração também é.
Escolher sua melhor roupa, seu melhor sorriso e seus melhores sentidos pelo outro é um lugar comum cada vez mais incomum, porque quase ninguém está achando.
Achar que cartas, cartões, emails, posts em blogs, Instagram, Twitter, YouTube, Facebook ou mensagens no Whatsapp ainda são poucos meios para expressar sua emoções, não é exagero, é tempero.
Porque o homem pode inventar tudo, ir ao espaço, quebrar tudo na Terra, dominar o ciberespaço e até substituir o próprio homem com tanta tecnologia.
Mas nunca vai conseguir com tudo isso preencher um coração vazio.
E muito menos esvaziar um peito repleto de sentimentos.
Mais clichês, por favor...
Artwork: Isabel Chiara

Errata

Desculpe, mas você me interpretou mal...
Eu não sou uma pessoa de arroubos.
Eu sou O arroubo.


Photo: Unknown artist





Exit

Você sai quando eu acabei de chegar
Você pede a conta quando eu resolvo ficar
Você resolve mergulhar quando eu saio do mar
Você para de tocar quando eu chego pra dançar
Você decide começar quando eu cansei de brincar
Você quer me amar quando não quero nem te odiar
Você foge correndo quando percebe que vou voltar

Você é inexato, abstrato e burro.

Photo: Grégoire Clouzeau

Preguiça

Meu coração está deitado ouvindo música
Escolhendo uma guloseima na geladeira
Lendo um livro com bons capítulos
Navegando no computador

Meu coração está folheando a agenda
Ele está afim de ver filmes sem legendas
Sabe que o melhor está além do que é dito

Meu coração está no modo avião
No lugar de sempre, mas sem total acesso
Não quer por vestido, batom nem saltos altos
.
.
.
Meu coração só quer ficar
.
.
.
Quieto.


Artwork: Penelope Dullaghan




Gotas

Olho o tempo seco da janela e penso que gostaria que estivesse chovendo agora... Com aquele barulho distintivo que abranda ao redor, mas também ameaça
Fazendo de onde estamos um pequeno quadrado seguro no mundo
Eu queria que a chuva estivesse batendo nas janelas, escorrendo pelas vidraças... Provocando a sensação de que não devemos nos mexer, um álibi perfeito
Para podermos deixar o que quer que seja para um outro dia
Eu gostaria de ver relâmpagos e de ouvir algumas poderosas trovoadas ecoando... Com aquele desejo instintivo de estarmos grudados com quem amamos
Para falarmos tudo, caso o mundo decida acabar nessa hora
Eu queria estar lá fora no meio da chuva com a minha falta de medo de me molhar...
De encharcar minhas roupas, minha calcinha; de deixar os cabelos escorrendo
De permitir que a água encontre caminhos pelo meu corpo
.
.
.
Para refrescar minha alma.
Photo: Kyle Marshall

Cardápio

Uma alternativa agridoce para momentos de tédio
Uma refeição rápida para necessidades urgentes
Uma opção de baixas calorias para dias amenos
Um escolha spicy para dias frios e calados
Um japonês para curiosidades exóticas
Um petisco para tapiar o pouco tempo

E um surpreendente banquete de iguarias
Que exige uma abertura dos paladares
Disposição para diferentes temperos
Inclinação para novos sabores
Coragem de experimentar
Falta de medo de gostar

Uma experiência que não permite voltar para o ponto de antes
Que modificará nossas papilas gustativas para todo o sempre
E levará nossas vontades muito além da simples fome

Uma oferta de pratos que não podem esfriar com hesitações
Que devem ter a ordem do ritual de degustação respeitada
Apreciada sem pressa em cada particularidade exata

Porque iguarias são iguarias e não apenas comida

Artwork: Siv Storøy










A Gaivota

Quem nasceu com asas longas
Não deve temer deixar a praia
Nem voar altas distancias

E quando em um voo avistar um mar aberto
Deve se lançar em um mergulho profundo
Para experimentar o novo, aventurar-se

Porque asas bem usadas levam a uma terra vasta
Asas atrofiadas podem ficar travadas e confinar
A coragem de voar alto condena ou liberta

Uma escolha.


Photo: Susie Loucks

Labaredas

O toque da palavra é físico
O silêncio vira arroubo
A hesitação declara
O olhar consome

Gotas de suor escorrem preguiçosas
A pele se debate entre afogar-se ou sufocar-se
Tentando driblar, o corpo tenta escapar aos pedaços
Mas cegos, escolhem ir para a mesma direção do fogo           

A insistência zomba das dificuldades
Nada faz sentido, mas tudo é exato
A distância desafia as vontades

O tempo é calendário
O calendário, datas
As datas são metas
As metas, desejo

O desejo, apenas palavras
As palavras são intenções
As intenções, o nada
.
.
.

Labaredas



Artwork: Jorge Torres

Jogo de Cartas

Suas palavras chegaram como se fossem íntimas da destinatária
As observações sutis, precisas, que a distinguiriam
As respostas perfeitas sem tempo (aparente) de elaborá-las
Os sentimentos assanhados de quem fez um grande achado

Era como se ele tivesse acesso a um manual sobre ela escondido
Onde pudesse estudar capítulo a capítulo o que a comoveria
Como uma chave para abrir suas portas transparentes, mas fechadas

E ela se deixou levar, passeou por ali, por ele, por tudo aquilo
Mas foi com a passagem de volta, sabia que iria voltar
Só desejou que durasse mais, antes do final anunciado

Ela sabia que o melhor era o que parecia ser, o que era evocado
Desconfiou o tempo todo e se fingiu de viva para poder jogar
Não era verdade nele, nunca foi, mas foi fato nela, sempre é...

Artwork: Delphin Enjolras

Paraíso dos homens

Eu decidi não expor minha indignação, meu ultraje, meus sentimentos quanto à recente violência inominável sofrida por uma adolescente brasileira estuprada por mais de 30 homens. Decidi ficar calada, andava cansada de qualquer bandeira, principalmente depois de participar ativamente das passeatas que começaram a questionar o governo recém deposto, e de vê-las se esvaziarem por claras sabotagens do próprio governo que pararam, calaram e aquietaram as vozes. O governo eleitoreiro das esmolas que assaltou o país foi reeleito e o trabalho que deveria ter sido feito para impedi-lo de continuar a sua festa, agora foi feito para expulsá-lo e remendá-lo precariamente. Cansei mesmo.
Mas hoje estava indo para a praia, dar um necessário break. Aqui não é a Venezuela (acho que disso escapamos), mas a vida não anda fácil. Daí passei pela portaria e ouvi a conversa do porteiro com um morador. Dois homens de formações e condições sociais distintas que estavam placidamente compartilhando a mesma opin…

Online

Por que não vira um hacker?
Por que não vira um stalker?
Vai deixar as coisas assim?
Por onde anda você agora?
Vai aceitar fácil que parti?
Por que não me procura?

Havia coerência em suas incoerências?
Então era verdade o que me fez fugir?
Vai apenas voltar para a vida de antes?

Como faz?

Você não precisa de respostas?
Sua vida não tem perguntas?
Ser ou não ser?

Tanto faz?

O que vai fazer hoje sem mim?
Para onde irão seus desejos?
Então era tudo mentira?
Então é isso mesmo?

Esse encontro aconteceu mesmo?
Foi só um exercício de eu?
Foi entre nós dois?

Talvez eu fique sem saber
Talvez eu até já saiba
Talvez eu até fique
Talvez eu saia
Talvez doa
Talvez






Artwork: Aykut Aydoğdu




Está bom para você?

A escravatura e a submissão não são mais toleráveis no mundo moderno e quando acontecem atingem apenas os vulneráveis, longe das vistas de quem pode ter voz — hoje se atos como esses forem des-cobertos há consequências imediatas e graves. Parece até que o mundo melhorou. Só que não.

Olhando em volta o que vemos são tempos de individualismo total. Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu também. O egoísmo virou sinônimo de liberdade, quando é o oposto, porque sempre fere a liberdade do outro. Estar as voltas apenas em torno do próprio umbigo definitivamente não é a resposta para todos os absurdos que o homem já fez com o próprio homem.

Ninguém aguenta mais nada, tudo está superficial, rápido e chato, Ninguém mais quer gastar tempo entendendo o outro, alcançando quem quer que seja. Tudo tem que ser em modo industrializado, senão não serve. Next!

Mas não ter tempo para o outro e não ter tempo para nós mesmos, afinal somos como um espelho; tudo o que fazemos se reflete em nós mesmos; e isso …

Decisão

Arranque a página.

Algumas vezes só virar não basta...




Photo: “Lesson of History” | Agatha Michowska

Um pouco mais de tempo...

Um pouco mais de tempo

Para você não sentir o desejos dos beijos apenas ensaiados
Para você desconsiderar tudo que podia ter mudado os planos traçados
Para você não pensar em como ainda quer muito tudo o que não aconteceu

Um pouco mais de tempo

Para você continuar esquivando-se do baque de me ver e do desejo de me ter
Para você não reconhecer as escorregadas das suas palavras e dos seus silêncios
Para você não perceber que seu ímpeto de fugir é o contrário dos seus sentimentos

Um pouco mais de tempo

Para você conseguir contrariar as sanidades estabelecidas
Para assumir a saudade vencida e comprar uma passagem agora
Para me ver e para assumir tudo o que quer e tudo o que podemos ser...

Take your time, babe.


Artwork: Christian Schloe 

Episodio 08

Hesito
Só vejo coisas embaçadas à frente
Nada tem forma, onde me seguro?

Cerro os olhos
Da janela a luz entra exagerada
Todos os caminhos dão no mesmo lugar, como saio?

Respiro fundo
O corpo dói, não quer ir a lugar algum
Eu não quero ir a lugar nenhum

Levanto
Faço um acordo com o que está funcionando
Vamos seguir em frente

Saio
A vida ganhou dos meus pedaços
Não me rendi

Artwork: Frank Moth



Gado

Insistir em ir além do que nossa família, educação, sociedade, país e geração escolheram para nós com referências, sugestões, imposições e como consequências deve ser um exercício diário de superação.

Ir ao encontro da nossa essência é a primeira parte da evolução. Sem isso, não há nem como começar; ficamos como gado no pasto:contemplamos o horizonte, aparentemente nos movimentamos, mas estamos sempre no mesmo lugar, garantindo apenas a sobrevivência.
Artwork: Clara Bastian


Acareações

Pertenciam a planetas distintos. Se encontraram ao acaso no espaço entre eles. Por alguma razão, que parecia ser das melhores, se conectaram. Passaram então a se explorar virtualmente via pulsos, fótons, bytes, chips, máquinas. 
Depois de dezenas de dias compartilhados em correspondências de todos os tipos: mensagens, imagens, cumplicidades, músicas, fotos, emails, confissões, diálogos, risos, silêncios, discussões, revelações, encorajamentos, concessões; estavam ali os dois, um diante do outro, na real. Não era mais potência, era vida, verdade.
E agora? O que ele ia fazer com o que cativou? O que ia fazer com aquela grandiosidade que claramente não cabia no pequeno espaço destinado apenas à sua fugaz curiosidade.
Ele devia ter consultado e sido honesto com as suas reais motivações. Afinal, permitir-se ir de encontro e se entregar a algo inteiramente novo exige uma liberdade que só é possível se desapegarmos do passado; e o passado é sempre muito confortável. 
E então começaram um out…

Sintaxe

Amores se tornam
O amor chega e já é

Amores decepcionam
O amor encanta

Amores vibram
O amor estabiliza

Amores arrombam portas
O amor abre caminhos

Amores animam
O amor inspira

Amores são possibilidades
O amor é certeza

Amores chacoalham
O amor emociona

Amores são corações
O amor é peito

Amores colorem
O amor ergue

Amores divertem
O amor enaltece

Amores tem nomes e sobrenomes
O amor simplesmente sabe

Amores dão ansiedade
O amor dá coragem

Amores seguem calendários
O amor tem seu próprio tempo

Amores arrancam risadas
O amor planta sorrisos

Amores são barulhentos
O amor é calado

Há amores
E há o amor


Artwork: Joe Webb


Entre amores II

Há amores estéticos
Só entram pelos olhos

Há amores hipotéticos
Na teoria seriam ótimos

Há amores desagradáveis
Entram inteiros e saem aos pedaços

Há amores que são memoráveis
Bagagens de viagens

Há amores que são carências
Meras bobagens

Há amores que nos tornam melhores e maiores

Há amores que só existiram para melhorar a nossa playlist

Há amores que só aparecem para lembrar que o amor existe

Há amores que nos embaçam
Há amores que são apenas ensaiosHá amores que nos bastam e acabam

Mas se há amores
Há sabores, cores e flores
Vitalidades...

Artwork: Frank Moth



Plenitude

Quando você conquista a liberdade de pensar, sentir, refletir, intuir, consentir,  ir, vir, voltar, desapegar, mudar, vivenciar, ver, perceber, querer, ser...
Quando você encara desejos, medos, aprendizados, planos, equívocos, afinidades, felicidades, dificuldades, cumplicidades, intimidades, proximidades, paixões, arrependimentos, ilusões, opiniões, apegos, diferenças, faltas, fantasias, falhas, sentimentos...
Quando você assume exatamente quem você é, tão claramente que não é capaz de confundir ninguém, nem você mesmo...
Quando você consegue se lançar inteiro nas oportunidades, nas chances, nas surpresas, nas descobertas e no desconhecido...
Quando você honra nome, dna, espermatozóide, óvulo, espírito e sopro...
Você vicia nisso.
Nunca mais aceita ser menos, se encolher, se retrair, se despedaçar para caber em qualquer coisa ou situação que não te suporte...
Se dá conta de que o maior prazer está em seguir sendo você.
Simples assim.

Photo: Ravshaniya

Machado

Desbrava Explora
Ergue
Conquista
Constrói
Começa
Corta
Derruba
Machuca
Estraga
Devasta
Destrói
Acaba

É inevitável
É a sua natureza...


Artwork: Vladimir Kush


Matemáticas

Quando nada é tudo o que você tem e tudo o que pode, deve e quer fazer
É porque zerou, e zeros são sempre precisos e irrefutáveis.
E a matemática que andava incompreensível
Ora dando resultados positivos, ora negativos
Segue sua natureza e torna-se exata.

Artwork: Nikki Galapon

Calmaria

É quando o sol ofusca seus olhos
É você se queima, fica suado, exausto, se esgota

É é quando as ondas te sacodem
É você perde o fôlego, fica com medo, se engasga

É é quando a areia te cansa
É você se arrasta, fica arranhado, se machuca

É que você para, respira, se aquieta, olha em volta
E percebe que o melhor lugar para estar

É exatamente na paz de antes...

Artwork: Alex Chernigin