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Paraíso dos homens



Eu decidi não expor minha indignação, meu ultraje, meus sentimentos quanto à recente violência inominável sofrida por uma adolescente brasileira estuprada por mais de 30 homens. Decidi ficar calada, andava cansada de qualquer bandeira, principalmente depois de participar ativamente das passeatas que começaram a questionar o governo recém deposto, e de vê-las se esvaziarem por claras sabotagens do próprio governo que pararam, calaram e aquietaram as vozes. O governo eleitoreiro das esmolas que assaltou o país foi reeleito e o trabalho que deveria ter sido feito para impedi-lo de continuar a sua festa, agora foi feito para expulsá-lo e remendá-lo precariamente. Cansei mesmo.

Mas hoje estava indo para a praia, dar um necessário break. Aqui não é a Venezuela (acho que disso escapamos), mas a vida não anda fácil. Daí passei pela portaria e ouvi a conversa do porteiro com um morador. Dois homens de formações e condições sociais distintas que estavam placidamente compartilhando a mesma opinião:

 Os "cara" estavam errados, mas ela também errou. Disse o porteiro, sorrindo de lado, com ares de ter dito uma frase "eureka".
 Ééééé...–  emendou o morador –  se ela passou por isso é porque também gostava muito da coisa. 

Nem que eu quisesse, meu corpo se calaria. Voltei do portão, parei na frente dos dois e disse: O que vocês estão falando é um enorme absurdo. Gostaria que vocês parassem e pensassem no que disseram, por gentileza. E saí...

Saí para esse mundo cada vez menos azul, menos cor de rosa, menos colorido. O que se passa? Alguém por favor me explica porque, do alto da minha experiência de algumas décadas de vida, não consigo entender; porque não sei pensar apenas com a cabeça, não aprendi. Sempre pensei com emoções e com sentimentos também, e coisas assim fogem da minha compreensão, de verdade.

Onde posso dizer, escrever gritar, pintar, desenhar, que mesmo que uma mulher ande pelada pelas ruas, ninguém tem o direito de atacá-la sexualmente; de desrespeitá-la e forçá-la a fazer alguma coisa que ela não queira; de ser covarde com sua condição física e emocional.

Onde posso chorar para mostrar que mesmo que uma mulher decida ser sexualmente promíscua - como os homens são há milênios, à vontade – ; ou que resolva trocar de parceiros na mesma proporção que troca de calcinhas, isso não dá direito a nenhum homem do planeta de forçá-la a fazer sexo com ele sem o seu consentimento.

Onde posso gravar para sempre que atos assim não são uma questão de valores, sexos ou gêneros; são uma questão de humanidade.

A minha vontade, juro por Deus, foi de ficar pelada e sair andando pelas ruas. de ir pelada para a praia, em protesto. Mas lembrei que não estou em uma terra de seres humanos, estou em uma terra de homens. 


Artwork: Adam Hale