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Mostrando postagens de Agosto, 2016

Futuro on the rocks

Na geladeira, rótulos de cervejas ao acaso
No ar, a música da hora toca no automático
Cream cracker com pasta vira petisco
Os assuntos não são concentrados
As risadas, livres e desconcertadas

Os temas não serão nunca lembrados
Os motivos não são importantes
Os propósitos não são exatos
As buscas não são precisas

As atenções não têm foco

É apenas uma interseção de afinidades
Coincidências estratégicas de idades
Resenhas de uma geração
De uma vida em gestação
Um interlúdio para a real-idade

E então depois que o tempo já foi instalado
Essa desimportância ganha relevância
É o cimento que estabiliza solos frágeis
O oxigênio nas nuvens dos desencontros
O sol em um mundo de óculos escuros

Onde as escolhas são conscientes
As decisões são mais fáceis
A jornada encontra sentido
O equilíbrio é uma conquista
Mas nada é tão leve como antes

Artwork: Scott Clendaniel

Contrastes

E o que seria eu sem os meus desamores?

Sem um enredo para minhas  palavras
Sem um alvo para meus sentimentos
Sem encarar as minhas incertezas
Sem um desastre entre as vitórias

E o que seria eu sem viver meus dias?

Sem procurar o que me basta
Sem inevitáveis desencontros
Sem despertar com cansaços
Sem querer o que me falta

E o que seria eu sem errar?

Sem às vezes me perder
Sem tentar me achar
Sem me perder
Sem acertar

E o que que seria eu sem me entender?

Sem me desconhecer
Sem me reconhecer
Sem me conhecer
Sem me ser

E o que seria eu?

Senão eu mesma
Senão eu
Senão
Se


Artwork: Aykut Aydoğdu



Sem fôlego

Os olhares se encostaram
Era possível sentir o toque calmo
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Íntimo

O mundo em volta embaçou
Saiu de foco, só ele ficou nítido
.
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Silêncio

Ele não se movia
Sua imagem congelou como em um retrato
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Impacto

De repente tudo voltou a funcionar
A cena ficou rápida, um tiro certo
.
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Encontro

Quando ela se deu conta, estava entregando um cartão
Na sequência, ele estava no feed dela
.
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Certeza

E agora estavam ali, no mesmo quadro
Abraços fortes antes de nomes e sobrenomes
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Quereres

Nariz com nariz, cheiros, texturas, temperaturas
E um inédito hiato bom no peito
.
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Suspiro




Artwork: Alex Chernigin

Noite inconclusiva

Pela vidraça do McDonald's da Times Square, ela lança um olhar longo pra rua
De onde está, observa pessoas zanzarem pela madrugada pós alguma coisa
Está no segundo andar, mas parece que esta mais distante, fora dali
Alguns caminham sozinhos, devagar, sem linhas retas, errantes
Outros riem em grupos; ela não os ouve, mas parecem felizes
Outros são um, na verdade dois, apertados por um abraço
Ela é um pouco de todos e também não é nada daquilo
Por isso, quando ela se perde, adora ir para aquele lugar híbrido, vago
Fast food, fast images, fast moments; um lugar onde nada é retido
Aquele anonimato forçado lhe confere uma sensação de conforto
Quem é ela, quem são todos, apenas um monte de ninguéns

Ela continua olhando pela vidraça, ofuscada pelo neon do letreiro abaixo
O excesso de cores e apelos ao redor torna tudo menor e simplificado
A poluição de sons e imagens provoca-lhe uma meditação ao inverso
Enquanto vestígios dos desejos e das intenções de horas antes
Se dissipam no murmúrio…

Parênteses

Sem local definido
Não importa, tanto faz
Urgente mas na hora que der
Qualquer tempo vai ser tudo.

Espera-se que seja intenso
Revigore sentidos domesticados
Abra pupilas, poros, plexos, nexos
Provoque ondas em meio a marolas

Datas são acertadas, a hora combinada
Tudo tem que acontecer em paralelo
Sem tocar as linhas limítrofes
Mesmo que sejam invisíveis.

É declarado, escancarado, escandaloso
Mas tem que permanecer super secreto
Trata-se de um escape, um adendo
Com significado controlado

Mas, para quem é um texto inteiro
Resumir-se a um parênteses
Que não altera o sentido
Não interessa.

Artwork: Jill Battaglia






Jump!

Tempo prévio, fantasia
Os segundos se arrastam
Irritando a pressa da ansiedade

Desejos saem pelas roupas, descosturam
As expectativas desafiando a realidade cética
A pressão, as impressões, o primeiro encontro

E então, será uma confirmação, uma ilusão, um desatino, um nó?
Tudo pode surpreender, inclusive para melhor e por que não?
O melhor talvez esteja no exato momento do não saber
Onde tudo pode ser ou tudo pode ser coisa nenhuma

O jogo não é controlar os resultados, é apostar

Photo: Nico Stinghe