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Somos todos replicantes


Cada pessoa tem uma impressão digital que a distingue, assim como um DNA. Somos seres únicos, cada um com seus particulares talentos, com suas próprias dificuldades e com uma capacidade única de ampliar o que tem de bom ou potencializar o que tem de fraco. Escolhas.

É interessante observar que, no entanto, o mundo como foi criado pelo homem, o tempo todo tenta enquadrar todos: uma forma de pensar, um comportamento a seguir, uma expectativa a cumprir, um modo de vestir, uma maneira de se comportar, um roteiro a seguir. O pior é que todos, quase na totalidade, sempre aceitaram isso como gado. É histórico.Tudo sempre mudou, mas quando mudou virou om novo padrão para todos.

"Hoje, a grande ousadia da vida é o mais simples: ser você." 

Mas isso agora está grave. As pessoas estão ficando com pânico de querer, de mudar de ideia, de conseguir, de desistir, de insistir, de conquistar, de perder. A humanidade continua regida pelo medo, só que em cargas maiores. Hoje, a grande ousadia da vida é o mais simples: ser você. Como com tanta informação, amplidão e possibilidades, isso está ficando mais difícil, ao invés de ficar mais fácil?

As redes sociais, a grande vedete das relações contemporâneas, por exemplo, cresceu como a promessa de um canal para todos se expressarem e destacarem suas individualidades, mas todo mundo quer ser igual a todo mundo; todo mundo quer gostar do que todo mundo está gostando, sem ao menos se perguntar se o que o outro demonstra é autêntico e se lhe cabe.

"(...) de perto ninguém é perfeitinho e tão feliz."

O mundo está virando um gigantesco faz de conta, onde frase de efeitos, fotos editadas, filtros manipulados, motivações estratégicas e perfis falsificados de si mesmos revelam que, na verdade, ao contrário do que se propaga, de perto ninguém é perfeitinho e tão feliz, e a maioria sequer está satisfeita com a própria vida.

Gerações anteriores se debateram, se rebelaram. gritaram, lutaram, questionaram, atacaram, e até morreram por rejeitar dezenas e dezenas de padrões impostos pelo mundo do que é bom, certo, bonito, válido, tolerável. 

E agora? Em plena era dos haters, que descuidam da própria vida para apontar o dedo para quem eles acham que não está sendo o suficiente perfeito na própria? E agora? Na era das fake news, que desbancaram o perigo das informações manipuladas pelos veículos oficiais de comunicação, criando simplesmente do nada, o que possa servir a quem interessa ou apenas entreter ao avesso? E agora? Com a internet colocando os vulneráveis ao alcance fácil dos predadores?

"Estamos desabilitando os sentimentos, virando clones (...)"

Estamos anulando as emoções pelo o que é conveniente, deixando de olhar e conhecer o outro,  deixando de aprender sobre de quem fato somos. Estamos falhando na compaixão, enfraquecendo na honestidade, preferindo o que e quem é mais fácil; o que e quem está ao alcance; o que e quem é mais aceitável ou tem um status mais compatível com nossos anseios emprestados. Estamos desabilitando os sentimentos, virando clones de nós mesmos, replicantes de Blade Runner!

E o que faremos? Gritar socorro, mostrar-se preocupado, reconhecer, reagir, negar, mudar, revolucionar, nada disso está entre os trends. O que podemos fazer, na verdade, está nos fóruns íntimos,  no cara a cara com o espelho, no deitar no travesseiro, no olhar para o próprio umbigo e se perguntar: O que que é que eu estou fazendo? Para onde estou indo? É isso que eu quero? Está bom pra mim? Quem eu realmente sou? E...assumir tudo isso para si mesmo e, depois, para o universo.

"(...) ser exatamente quem você é o que está comprometido (...)"

Parece simples, apenas um jogo de perguntas, mas a questão é que não vai adiantar recorrer à respostas padronizadas, porque não se trata de apaziguar as insatisfações de clientes em uma espécie de SAC da vida. Trata-se da sua existência, da sua essência, da sua alma, do seu destino, de você.

E o livre exercício de ser exatamente quem você é o que está comprometido nesse emaranhado de padrões que se repetem a cada consumo desnecessário, a cada post, a cada vídeo, a cada meme propagado, a cada mensagem vazia, a cada link compartilhado, a cada pensamento que não se alonga, que não se desenvolve, que é interrompido por esse excesso de atenção fragmentada que está nos arrancando de nós mesmos.



Photo: Daryl Hannah | Blade Runner Film (1982)