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Mostrando postagens de Outubro, 2018

Salvo-conduto

O amor libera salvo-conduto
Para vir, ir e vir de novo
Para ultrapassar linhas
Para errar à vontade
Para voltar atrás
Para dar tempo
Para ajustar
Para ficar

Partir
Parar

Arar
Ar


Artwork: Alena Aenami

Terminal

Um ar novo chega forte
Portas e janelas se abrem...
Memórias de fatos voam por elas
E com elas, desejos não realizados
Que, despegados do espaço e do tempo
E sem fôlego para ficar, viram movimento

Melhor preservar a leveza e o contentamento
De tudo que foi vivido ou apenas evocado
De tudo que  foi consumido à exaustão
De tudo o que sentimos só o gosto
Deixando ir com olhos abertos
Deixando ir todos os apegos

Há algum pesar na passagem
Mas se o que ficou é bom
Essa hora não é ruim
Fechou um ciclo
Abriu um novo
Mais rico
Porque
Valeu


Artwork: Alex Chernigin





Depoimento

E quando dei por mim, deu um click...
Eu finalmente eu havia perdido todo o medo

De respirar...

De ir ao encontro
De ganhar ou perder
De dizer o que penso
De ficar rica ou pobre
De errar e encarar isso
De sentir como eu  sinto
De desprezar os  roteiros
De dizer não ou receber não
De rejeitar o que eu não quero
De enfrentar minhas fragilidades
De dar muito certo ou muito errado
De me expressar como eu bem entendo
De desobedecer o que não me represente

De viver...

Não sei se é corajoso ou suicida
Se é maduro ou infantil

Pouco importa
Foda-se
Essa
Sou
Eu


Artwork: Stasia Burrington

Cura

O médico estava embargado, olhando baixo, escolhendo cirurgicamente cada palavra...
Ela precisou resumir aquilo tudo:
- Dr, sejamos práticos e objetivos: quanto tempo eu tenho de vida boa, sem ter que me submeter a tratamentos violentos que irão me matar muito antes do meu último suspiro?
Ele arregalou seus olhos muito azuis e gaguejou...
- Mas, bem...como assim...como...você não quer fazer o tratamento? Eu recomendo que...
Ela precisou interromper aquilo tudo:
- Não importa, apenas me responda: quanto tempo posso viver a minha vida como ela é hoje, sem hospitais, remédios pesados, tratamentos massacrantes?
Ele pausou, respirou, pensou, ficou duramente sério,  e respondeu firme
- Não tem como eu ser preciso, depende de vários fatores, depende de você, da sua natureza...mas não muito mais, alguns meses, acredito que uns quatro a oito.
Ela precisou absorver aquilo tudo. Um silêncio falou bem alto...e ela continuou firme
- Entendi. Que seja. Se eu tiver que ir embora prefiro ir pela por…

Inóspito

A moto rompe o silêncio da estrada
Nela, um casal segue colado, mesmo sob o sol
Gotas de suor encharcam as partes deles que se tocam
E eles ignoram aquele pedido de socorro dos corpos que ardem
Porque, na verdade, eles se divertem em desafiar condições impossíveis
E sentem imenso prazer em perceber que seus desejos sobrevivem...ao inóspito.


Photo: Taylor Jones


Explosão

Quando apertam meu botão errado
Quando verdades veladas me embaçam
Quando meus afetos são desconsiderados
Quando perdi sem ter tido nenhuma chance

Eu quero puxar o pano e quebrar a louça
Eu quero marretar o vidro dos carros
Eu quero colocar fogo na floresta
Eu quero pixar obras de arte

Eu quero machucar igual

Nem que as armas
Sejam palavras
Sejam textos
E pretextos.



Artwork: Naro Pinosa



Intervalo

(...)

Mais uma vez, ao ver as cenas de uma história na tela de cinema
Percebi que eu amo tal como os amores retratados em livros e filmes
Eu sinto nas veias, mergulho fundo, me jogo do alto, desafio os limites
Então, que seja de ficção, de literatura, de cinema...desde que me arrebate
Porque diferente disso eu acho raso, acho frouxo, acho datado, acho vulnerável
Porque sempre amo apaixonadamente, como se fosse pela primeira ou pela última vez

Talvez eu tenha uma alma de artista ou um coração de poeta, e não vou fingir que não

Mas poetas também descansam...


Artwork: Eugenia Loli



Martha Medeiros

"Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente."   (Martha Medeiros)

Artwork: Aykut Aydoğdu



John A. Shedd

" Um navio está seguro no porto, mas não é para isso que os navios foram feitos "
John A. Shedd





Photo: Mali Maeder








Escolhas...

O vagão do metrô treme

Ela está imóvel, seus olhos vagam pelo espaço
Ela não está viva naquela cena, é uma estátua

O ar-condicionado está gelado

Mas da nuca dela escorre uma gota  preguiçosa
Entra no vão da coluna, descendo pelas costas
Encontra o cós da calça, se esticando bem fina
E não para nem ao tocar o elástico da calcinha

Nesse momento ela estremece

No debate paralisante entre a razão e a emoção
O seu corpo prefere pensar e agir independente
Nele não há dúvidas e nem confusão, só desejos
Parece que ela ficou nua no meio daquela gente
Sem ter como ocultar o peito aberto até o sexo

A estação chega, ela corre pra sair

Caminha cegamente até sua casa
Sem cumprimentar conhecidos
Sem desejar uma boa noite

Entra rápida no elevador
Avança pelos corredores
Abre a porta depressa
E cai direto na cama

Não para descansar
Tampouco dormir

Cerra os olhos
E cede a ele
Escondida
Protegida
Entregue

Por uma
Última
Vez



Artwork: TA Garcia






Fato é...

As pessoas só entendem o que elas querem (ponto)

Artwork: Trisha Lambi







Começo...

E bem no final de todas as contas...
Ela se apaixonou pelo seu próprio amor

Por todas as inéditas emoções que sentia
Pelas cenas maravilhosas que visualizava
Pela potência que considerou fato concreto
Pelas sintonias que tornaram-se depoimentos
Pelos fragmentos transformados em monumentos
Pelas músicas que formaram uma incrível trilha
Pelos desejos que sacudiram a rotina do dia a dia
Pelos sorrisos que ativaram músculos desconhecidos
Pelas palavras que bailavam dela depois dos capítulos
Pela provocação que tanta vida fazia ao preguiçoso óbvio

Ele, no duro, era apenas um cara disponível...até não ser mais.
E quando ela se deu conta, pegou seus sapatos e partiu de calcinha
Ela não tinha mais tempo a perder...um começo a esperava longe dali



Artwork: Hamish Blakely


Índole

Eu cedo
Eu arrego
Eu acredito
Eu questiono
Eu sou fácil
Eu volto atrás
Eu pago pra ver
Eu me contradigo
Eu mudo de opinião
Eu dou a cara a tapa
Eu não desapego fácil
Eu raspo e lambo o tacho
Eu experimento até o final
Eu sugo até as últimas gotas
Eu sou infiel ao que não quero
Eu dou oportunidade ao improvável
Eu caminho na escuridão sem lanterna
Eu fico cega com a claridade em excesso
Eu entro na chuva e me molho até os talos


Eu não presto...


Artwork: Alex Chernigin

Decreto

(...)

Só quero ouvir as músicas que adorei
Só quero dançar onde posso me espalhar
Só quero comer o que atiça a minha saliva
Só quero sair de casa para o que me faz bem
Só quero vestir o que me cai confortavelmente
Só quero falar para quem tem interesse em ouvir
Só quero gastar meu tempo com o que não me custa
Só quero amar quem consegue receber todo o meu amor
Só quero ser exatamente eu mesma sem economia alguma

Porque tudo o que é bom tem que ser com exagero e sem pena...




Artwork: Scout Cuomo




Ensaios eternos

Ele a observa calado, imóvel, através do vidro da janela

Entre as cortinas que as vezes abrem e revelam a imagem dela

Ela se move, tira roupas, mexe nos cabelos, escuta música e dança

Ela cria uma bela coreografia com seus movimentos e, de repente, para

Ela ameaça olhar na direção dele. Ele se abaixa rápido. Ela sorri sem olhar

Ele se esconde, pensa em sair, mas ela não aparece entre as cortinas que bailam

Ele acha que ela sabe que ele está ali ; ela também acha que ele sabe que ela sabe

Ele nunca se apresentará a ela; está hipnotizado pelo que vê, mas jamais irá tocá-la

Ela o incluiria na vida, na cena, na cama; nú sob lençóis, braços fortes atrás da cabeça

Platéia perfeita...



Artwork: Nelli Utalishvili

Natureza

(...)

Sim, é fato, eu continuo com uma natural tendência de desbravar
Mas ela agora está desprovida da arrogância de querer mudar cursos
Aprendi que só mudamos a trajetória de rios com violentos artifícios
Também não espero mais que a luz do sol consiga iluminar todos os dias
E nem ignoro mais o que a noite estrategicamente não revela em suas brumas
A jornada finalmente tornou-se mais importante do que o fins que a originaram
E as surpresas pelo caminho muito mais prazerosas do que paraísos que não existem


Artwork: Aykut Aydoğdu

Livre

(...)
Não me lembro exatamente como começaram meus grande amores; alguns casos esqueci, de verdade; algumas esbarradas serão para sempre memoráveis, mas também não me ocorrem detalhes. Eu só me lembro (muito bem) que eu ainda tenho vontades...


Artwork: Fajar P. Domingo