Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de 2020

Friedrich Nietzsche

É preciso ter o caos dentro de si para gerar uma estrela dançante. Friedrich Nietzsche Artwork: Agnes Cecile

Um conto.

Ele fora o homem mais aprazível que Joana já havia encontrado e também o mais vil... Mas, como ela sempre tivera apreço por  pièces de résistance , por muito tempo focara apenas no que nele via de raro. Nas prolíficas páginas da sua versão imaginária dele, o que ele tinha de escuso e sofrível era sempre relegado à invisíveis notas de rodapés. E assim, Joana vivera aquele encontro o mais amplamente que pôde, enfrentando com um otimismo míope aquele desafiante dualismo que muitas vezes a partiria.  Sim, fora uma luta longa, lenta e desigual, travada em batalhas repetidas e exaustivas; alimentadas por calmarias mágicas, mas estrategicamente fugazes.  Até que ela tombou, acordou, e finalmente separou o homem real daquele que criara em sua privilegiada ficção. Feito isso, arrancou muitas páginas, reescreveu outras; releu e reeditou tudo até chegar a um único conto — surpreendentemente curto — com começo, meio e fim: Ele fora o homem mais aprazível que Joana encontrou, mas também o mais vil.

Falling out

Há um tipo de amor que Não enfraquece Não desgasta Não perece Ele acaba Porque . . . Se suicida. Photo: Sölve Sundsbo

Big Bang

  Expressar-se é como fluir, ventar, expandir, explodir ou vomitar... A maneira depende se o que sai é inspirador, transformador ou tóxico. Seja como for, é natural e nos move para fora, para cima e para frente Como um míni big bang que vai nos re-compondo e nos re-criando sempre. Artwork: Elizabeth Amento

Beleza

  A beleza que vejo no mundo é muito minha Porque eu a invento, a acho no escuro e nas coisas óbvias que a ofuscam... Artwork: Anna Niemiec

O sonho

Miguel e Joana se reencontraram na rua, sol forte, vida seguindo. Ambos ficaram contidos. As palavras, antes tantas, faltaram. Sem saber o que dizer, saiu dele um comentário espontâneo, que o fez arrepender-se um segundo depois: —  Sonhei com você outro dia...andávamos meio sem destino, você estava com aquele vestido preto que eu gosto...  — Miguel falou sem graça, quase desculpando-se em seguida. No mesmo instante, ele viu os olhos de Joana se apertarem quando se viraram em direção aos olhos dele. Ele ficou desconcertado. Não sabia se era uma reação física, causada pela luz intensa do dia, ou se foi o reflexo de alguma lembrança desconfortável. Afinal, a última vez que os dois se falaram fora conclusivo: não brigaram, mas decidiram separar-se definitivamente, de comum acordo, depois de muitas tentativas unilaterais antes. No entanto, depois de fitá-lo   por alguns segundos entre os cílios , Joana o surpreendeu: —  Adorei saber que ainda passeio pelos seus pensamentos com aquele vestid

Sangria

  Eles compartilhavam algo indefinível Recíproco e forte, mas desigual Se fosse o mesmo para ambos Ele estaria costurado a ela Com nós tão apertados Que eles sangrariam Por onde passassem Criando um rastro Não de gotas E sim de Flores Artwork: Karlee Marie

Fuga

Ilusões escorregam e deslizam Invadindo cérebro e coração Acariciando o corpo Provocando Jatos de razão reagem E e as expulsam Como podem. Ensinados... Limpando superfícies Diluindo estruturas Aguando ao redor Desfazendo tudo Dissolvendo os vestígios Que não desaparecem Apenas se espalham E voltam ao fundo Aquietando-se Na esperança de um dia Voltarem a deslizar de novo Para sentirem mais um pouco O prazer de serem tão fortes que Precisam ser bem vigiados ou fogem... Artwork: Tina Spratt

Re-conheço

ARMADURAS e borboletas não combinam.  © Artwork: @desertmusestudios

Joan Didion

Escrevo inteiramente para descobrir o que estou pensando, o que estou olhando, o que vejo e o que isso significa. O que eu quero e o que temo. Joan Didion

RIP

Aquela morena de longos cabelos deu um suspiro das vísceras E pensou: "Que meu amor descanse em paz..." Ela vinha de um longo funeral Mas ficou com as flores E elas incrivelmente Nunca murcham. Artwork: Catrin Welz-Stein

Livre

Não posso mais amar ninguém Não tenho mais coração Apenas borboletas No peito Artwork:  Christian Schloe   

Amelie Não Quer Mais

A COVID-19 é um mal que abalou (literalmente) o mundo e ainda não parou de fazer vítimas. Mas, na carona do seu isolamento forçado vieram reflexões, percepções e insights que podem mudar (e melhorar) a maneira de nos relacionarmos com a vida. E uma delas é: Precisamos de tanta coisa? Logo no início da pandemia, com tempo de sobra e sem cabeça para o que exigisse muita concentração, me ocupei arrumando todos os armários que existem na minha casa. Coloquei na conta até aqueles que ficam no alto de nossas cabeças, e nos quais costumamos guardar coisas que ficam anos (ou até o resto da vida) sem serem utilizadas. Então para que guardamos, não é? O resultado dessa expedição doméstica foram encontros com lembranças, achados eventuais  de coisas que jurava que tinha perdido e, sobretudo, um monte de coisas dispensáveis: roupas que nunca usei, joias que nunca usarei; uma quantidade de bijuterias maior do que sou capaz de usar, mesmo se tivesse a vida social mais intensa das galá

Balada

(...) Os dois estão no carro, arrumados, indo para uma festa  A noite está fresca, céu aberto. Uma música suave, mas embalada, toca com clima de night . Eles conversam animados, faz tempo que querem ir para uma balada com os amigos.  Quando estão quase chegando, uma retenção no trânsito força uma parada. Ele olha distraidamente pela janela, apoiando o braço no volante e fica assim alguns segundos. Em seguida, lembra de algum assunto e vira para comentar com ela.  Ela está com um olhar fixado nele: olha seus braços, seus ombros, seu pescoço, sua boca... quase nada nela se mexe, só os lábios que se comprimem suavemente.  Ele reconhece aquele momento e esquece o que ia dizer. Fica rindo, levemente nervoso, temendo, esperando...gostando...  Ela então pula mais perto dele, mete as mãos em suas calças e abre botão e zíper com uma precisão de ninja, enquanto ele facilita, jogando braços e ombros pra trás.  Ela então enfia a mão pela calça dele e o encontra pulsando. Depois de engolir ele inte

Sylvia Plath

Beije-me, e você verá o quanto importante eu sou... Sylvia Plath Artwork:  Christian Schloe   

Metamorfose.

Adeus não tem despedidas... Artwork:  Catrin Welz-Stein

Reparo

Um coração descosturado Para ser emendado de verdade Sente cada pontada da fria agulha O seu corpo metálico forçando as tramas A linha seca passando longa e determinada E, sobretudo, os invisíveis nós da recomposição... . . . Só após esse processo meio passivo-agressivo, ele fica pronto Não para ser descosturado de novo, mas para fingir que nunca foi - - - - - - - -  - - - r#a#s#g#a#d#o - - - - - - - - - - - - - - - - Artwork:  Christian Schloe   

Volta

Quando ela era pequena... Era comum borboletas, vagalumes, grilos, abelhas e joaninhas pousarem nela Assim como gatos, cachorros, passarinhos, cabras e coelhos se aproximarem  E isso acontecia tantas vezes que ela não sentia medo ou achava estranho Era uma natural integração com o mais puro do que existia ao seu redor Hoje, ao olhar tão para trás, ela percebe que eram momentos mágicos Era uma paz que não existia na vida dela, mas que emanava dela Uma conexão perdida entre sombras e fúrias que não eram suas De vez em quando essa energia voltava forte e depois sumia  Uma força genuína que ela jamais desistirá de recuperar . . Porque é dela. Artwork:  Christian Schloe   

Renascimento

Com o passar dos anos... Se você apenas perece e se rende A ossos, carne, músculos e pele . . Você está envelhecendo Mas Se você faz o caminho de volta E reencontra a sua criança . . Você está evoluindo É a diferença entre murchar E tornar-se semente Uma escolha . . . Livre Artwork:  Catrin Welz-Stein  

Maremoto

Se você insiste e enfrenta todas as intempéries Toda a aridez, a dor, as quedas e os rompimentos Estação a estação   .   .   . A vida se cansa de te testar e te devolve o que é seu. Porque para algumas pessoas, o melhor Não está no topo, mas debaixo de entulhos E apenas tempestades, maremotos, tufões e terremotos . . . L i b e r t a m . . . Artwork:  Catrin Welz-Stein  

Katherine Mansfield

Eu quero ser tudo que sou capaz de me tornar. Katherine Mansfield  Portrait: Anne Estelle Rice

Reciprocidade

Às vezes o amanhã não chega a tempo Às vezes o "um dia" é sempre nunca E às vezes o futuro acaba. Artwork:  Catrin Welz-Stein  (blog sepia version)

Contrastes

Viver a perda dela era algo inédito para ele Enquanto ela vivera a perda dele em... __ fi __ nas __ fa __ ti __ as Artwork:  Catrin Welz-Stein  

Invisível

Estou farta de cegueiras emocionais Não quero saber nem de quem use óculos. Artwork:  Christian Schloe   

Ernest Hemingway

(...) Já sabia, então, que qualquer coisa — boa ou má — deixa um vazio quando acaba. Se era má, o vazio se enche por si mesmo. Se era boa, só se poderia enchê-lo encontrando alguma coisa melhor. (...)  Ernest Hemingway - Paris é Uma Festa 

Pausa

Pássaros às vezes precisam de gaiolas para descansar as asas . . . Para voos   .   .   .   M    A    I    O    R    E    S. Artwork:  Catrin Welz-Stein  (blog sepia version)

Trégua

Uma pena que para libertar um coração Seja necessário batalhas repetidas e sangrentas Melhor seria se pudéssemos apenas abrir a porta. . . Artwork:  Catrin Welz-Stein  

EuPENSOque

Precisamos ser fiéis a nós mesmos em alguma graduação Ou nos tornamos apenas corpos com funcionalidades . . . Robôs. Artwork:  Catrin Welz-Stein