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Mostrando postagens de 2021

10 coisas que não gosto...

Quando a xícara de café balança e o café transborda, fazendo o líquido escorrer discreto, mas maculando o pires... De pessoas que não olham nos meus olhos nunca, como se falassem comigo sempre atrás da vidraça fechada de uma janela. De pessoas que têm preguiça de sorrir porque, na verdade, não gostam de dar coisa nenhuma para pessoa alguma. De pessoas que falam sem parar, sem respirar, emendando assuntos, fazendo de tudo para evitar qualquer mínimo contato até com elas mesmas De pessoas sem responsabilidade emocional, que provocam e cativam sem qualquer intenção a não ser a de fazer do outro mero entretenimento De grosserias gratuitas, não provocadas, não justificadas, verdadeiras "pedras em gatos" De horários impostos que brigam com o meu relógio interno e me roubam tempo bom.  De situações vividas com começo, meio e fim, mas sem palavras, sem ações, sem fatos, sem transparência; alimentadas e morridas apenas na subjetividade, por pura covardia. Quando ignoro minha intuição

Lalande

Ela estava ali, de saia grudada nas pernas molhadas, blusa larga ao vento, ombros à mostra, nua. O mar dissipou sua solidão, enchendo seu instante de sons brandos e carícias macias. Ela olhava para um horizonte que não enxergava, mas pressentia. Uma brisa anunciava que ela não se deteria ali, que  não se deteria mais. Sereias a olhavam escondidas entre as pedras, marinheiros nadavam para longe. No mar não havia embarcações, apenas água, infinito e todas as possibilidades que submergiram para acompanhá-la na volta para ela mesma. Sereias a olhavam escondidas entre as pedras, marinheiros nadavam para longe. Seu corpo, agora em movimento, foi  desaparecendo na areia, sumindo depois entre as árvores, deixando o cenário sob silêncio, sem perguntas, sem respostas. Não estava mais sozinha. Serenas certezas partiram de mãos dadas com ela. Lalande - Citação do livro Perto do Coração Selvagem de Clarice Lispector. Painting: Marco Busoni

Delete

(...) Certa manhã, no meio da pandemia global, de um cenário local surreal regido por um Presidente estúpido, trabalhos incertos, desencontros decretados e um ranço das redes sociais que só desassociam, recebi de um amigo um vídeo de uma criança fofinha que mal sabia falar. Logo que vi os primeiros segundos da tal gracinha deletei o vídeo sem dó! Fiz isso em um gesto tão contínuo que, por alguns outros segundos, procurei uma culpa qualquer dentro de mim pela minha frieza cirúrgica. Foi quando uma Maria veio de mim e apressou-se a me avisar:  — Hoje estou sem poesia. Artwork: M . Hodgins

Marina Colasanti inéditas

  " Preste atenção ao seu sonar, ao que bate na sua alma diferente" "Quanto mais difícil fica a vida das pessoas, mais elas querem rir ao invés de refletirem" " As crianças precisam de estímulos que escancarem as portas do seu imaginário e não de histórias de princesas com finais sempre felizes. Elas têm muito mais para contar" "Literatura tem que ter bússola. Você tem que ser coerente com a direção do que você quer dizer" "Ser escritor é canibal. Essa profissão nos come" "O inesperado enriquece o texto" (Frases ditas durante o Curso Carpitaria Literária - Estação das Letras) Photo: Emile de La Croix

Dias de não...

  Há dias em que... Não tenho vontade de sair Não quero ver ninguém Não aguento as luzes  Não desejo saber Não quero falar Há dias de não... Dias em que só consigo andar nua à luz de velas Pelos corredores e cômodos particulares...de mim. Artwork: Raman Akanad

Porcelana

Eu a olhava da soleira da porta. O sol atravessava-me, reluzia no vestido alvo dela e rebatia no brilho do chão cinza de cimento queimado. Naquela explosão de luz a encontrei abaixada e silenciada, concentrada em catar caquinhos minúsculos, tentar montar partes maiores, recompor desenhos separados em mil pedaços, juntar poeirinhas brancas... Não quis interromper. Mas depois de alguns meses perguntei: — Mas o que aconteceu afinal? O que está tentando fazer? Sem me olhar ela respondeu: — Ele pisou no meu coração de porcelana... Fiz um silêncio longo...não sabia o que dizer. Então, bruscamente ela olhou-me nos olhos e disse: — Você pode pegar a vassoura e a pá para mim, por favor? Então ali atrás da porta da cozinha. Entreguei-lhe o que pediu e perguntei com suavidade. — Você quer ajuda? Ela deu um grande e ensolarado sorriso e respondeu: — Não. Será rápido a partir de agora. Eu só estava me despedindo. Image: Flora | Behance

zero absoluto

  O pior status que alguém pode ter comigo é o de eu não me importar com o que ela pensa sobre mim ou sobre qualquer outra coisa. Image: Unknown

2021

  Estamos em um tempo repleto de ignorância ao redor Temos que achar uma camada neutra para lidar com isso Escolher algumas pessoas para mergulhos bem acompanhados Dar um tempo espiritualmente e fisicamente longe de tudo e todos Para nos re-compor, para nos acharmos e para mantermos o fio no lugar Photo: Ravshaniya

Pedra é Pedra.

Sensibilidade não se aprende. Ou tem ou não tem. É isso. Então não percamos tempo em querer ensinar. Sigamos em frente. Artwork: Augustynka

Lampejo

(...) Joana abraçou o livro que lia para marcar a página em que o interrompera e olhava para o nada de cima do terraço, acima dos lençóis brancos que jaziam na corda naquele dia sem ventos. Seu olhar não dava pistas: não era feliz, nem triste; nem vago, nem introspectivo. Sua mãe, sempre observadora, fitou-a naquela cena paralisada que parecia até um quadro e perguntou, enquanto retirava a mesa do café da manhã. — O que que você tem, menina? Onde esse livro te fez passear?   — Saudade...— Joana respondeu sem editar. — Saudade de quê, de quem?... — investigava a mãe — Dele. Mas é uma saudade pura. — ela respondeu serena, enquanto lentamente voltava para o livro. — Eu heim? E como é isso? — É mãe...é uma saudade que não é urgente, não é carente, não é exigente, não é doída, não é inconformada e nem esperançosa. Não é uma saudade querelante. Ela se basta. — explicou Joana sem alterar o tom da voz. — Acho que entendi. Então não é uma recaída, ou é? — a mãe quis ter certeza. — Não, mãe. É c

O que é pior?

 A indiferença ou uma descompromissada benevolência? Para mim é igual. Ambas são estéreis. Artwork:  Catrin Welz-Stein

Entre costuras

(...) Sim, havia uma falta invisível, mas ao mesmo tempo real e robusta Não cessava, entrava por todos os intervalos e pausas, fazia-se lembrar Mas desta vez nada a abrandava, tornara-se incapaz de ser domada, enganada Esgotara as lembranças bordadas de coloridas ilusões, interpretações complacentes Agora existiam apenas dias, horas e preguiçosos minutos incapazes de serem ludibriados Joana então passou a viver um diário sem poesia, talvez um deserto necessário para florescer Artwork:  Agnes Cecile

Azul

Miguel tinha uma personalidade evanescente. Não se detinha em absolutamente nada, talvez nem mesmo em si próprio. Vivia sob a rigidez de uma fórmula construída ao longo das suas ainda poucas décadas para não ter que lidar com nada que fizesse a menor marola no seu autocontrole.  Assim, ele podia ficar com sua jangada plantada em alto mar sem ir a lugar algum por tempo indeterminado. Ele não nadava, não mergulhava, talvez nunca tenha chegado sequer a molhar-se de fato, mesmo estando no meio do oceano. Miguel não se importava com a monotonia daquele céu sempre igual, nem com aquela vastidão de águas inalterável, desde que ele permanecesse exatamente no mesmo lugar.  Seu quadrado no mundo era um quadro monocromático e estático com um horizonte de linhas bem definidas e inflexíveis, onde nenhum elemento escapava ou surpreendia, apenas reafirmava  ad aeternum um estado de coisas inabalável ou em outra leitura...|paralisado|. Photo: Shutterstock

Anáguas

(...) Não, Joana não gostava de ficar sozinha ou de se afastar das pessoas. Era naturalmente alegre e carinhosa, gostava de correr pelos campos descalça, se jogava sem medo na grama, era capaz de entrar com roupas e tudo no mar, não fugia da chuva — se deixava molhar até encharcar-se... Mas, ela finalmente se deu conta de que sua sensibilidade tinha muitas anáguas e de que nunca mais permitiria que alguém pisasse nelas. Photo: Laura Hanifin

Futuro

(...) Ela poderia ter gritado impropérios, mas tudo o que conseguiu dizer foi: — Espero que você compre borboletas... E partiu, cabelos ao vento, todos eles. Artwork: Fabienne Jenny Jacquet

Capitã

Aviso aos navegantes: sou meu próprio leme. Então, apertem as cordas, mirem onde estão os coletes e chequem os botes salva-vidas. Não vou mais parar meu barco por monstros marinhos famintos, tempestades alheias ou piratas saqueadores. Agora à minha frente avisto apenas o tapete de mar aberto que me leva — nem sempre suavemente — para meu porto particular. Estou a caminho...