Pular para o conteúdo principal

Porcelana


Eu a olhava da soleira da porta. O sol atravessava-me, reluzia no vestido alvo dela, e rebatia no brilho do chão cinza de cimento queimado. Naquela explosão de luz, a encontrei abaixada e silenciada. Ela estava concentrada em catar caquinhos minúsculos, tentar montar partes maiores, recompor desenhos separados em mil pedaços, juntar poeirinhas brancas...

Não quis interromper. Mas depois de alguns meses perguntei:

— Mas o que aconteceu afinal? O que está tentando fazer?

Sem me olhar ela respondeu:

— Ele pisou no meu coração de porcelana...

Fiz um silêncio longo...não sabia o que dizer... 

Então, ela bruscamente olhou-me nos olhos e pediu:

— Você pode pegar a vassoura e a pá para mim, por favor? Estão ali atrás da porta da cozinha.

Entreguei-lhe o que pediu e perguntei com suavidade:

— Você quer ajuda?

Ela deu um sorriso iluminado pelo sol e respondeu:

— Não. Será rápido a partir de agora. Eu só estava me despedindo.



Comentários